domingo, 2 de agosto de 2009

Biografias transviadas

Cutucaram tanto a onça com vara curta que ela acaba de despertar e atacar todos os incautos indefesos da democracia. Como já não bastasse as falcatruas arquitetadas pela 'panela do Senado', cozinhada por José Sarney, a maior celebridade política do momento, a liberdade de expressão acaba de receber um tiro intrépido, mas pesado. Isso porque o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) e amigo íntimo da família Sarney, proibiu o jornal O Estado de S. Paulo de publicar reportagens sobre os Sarney.

E é aí que pesa o argumento deferido pelo nosso presidente Lula, quando pediu ao delegado da operação que tomasse cuidado com a 'biografia' dos envolvidos. Na verdade, a Polícia Federal nem precisou meticular as brechas; o próprio clã tratou de impedir que a biografia viesse à tona.

Este ato é uma clara supressão à liberdade de imprensa. Por mais que se possa criticar o conteúdo dos jornais, que cada vez mais se distanciam do interesse público, impedir a publicação de reportagens de qualquer espécie é uma tentativa deturpada de violar a Constituição.

O pior é que acontece justamente com aquele presidente que supostamente esteve no trânsito da ditadura à democracia.

Uma ressalva: José Sarney sempre foi simpatizante às ideias coronelistas. Isso porque ele comanda o Maranhão há mais de três décadas e teve o faro de fuçar ali, conquistar aliados acolá e comandar um veículo de comunicação hegemônico em sua terra natal. Nem é preciso analisar muito a fundo para perceber o descaso que Sarney tratou seu estado, colocando-o como um dos países mais pobres do país, com um índice de 56,4% de pobreza.

A política contemporânea é baseada na conquista de aliados. Tomando essa prerrogativa, não é errôneo dizer que Sarney é um 'bom político'; é da mesma estirpe de Antônio Carlos Magalhães, Arthur Costa e Silva, Severino Cavalcanti...

Tudo se baseia em aliados. Foi essa a arapuca fatal que pegou Lula em cheio. Ao defender o caudilho camuflado como uma 'pessoa que não pode ser tratada como um sujeito comum', Lula jogou a população que o apoiou às traças e abraçou o jogo sujo da política malévola. Tudo isso por quê? Porque quer garantir aliados para a campanha presidencial de sua candidata em 2010, Dilma Rousseff. Trafegando sobre o leite derramado, Lula está capotando feio. Capotando porque está investindo em uma política de compadres arcaica e coronelista para viabilizar a vitória do PT nas próximas eleições presidenciais.

E afasta cada vez mais os cidadãos de sua cordialidade política. Cidadãos que apostaram as últimas fichas em um líder carismático que aparentava percorrer uma trajetória possível ao crescimento do País, apesar de suas adversidades intelectuais. Na verdade, Lula ainda o é à imagem e semelhança que os brasileiros construíram.

Entretanto, caminha em campo minado ao optar por aliar-se às onças silvestres para garantir apoio político do hegemônico PMDB (ou, o partido mais apolítico do momento). Se o presidente continuar seguindo os passos estrondosos de José Sarney, pode comprometer aquilo que tanto presa: a sua própria biografia.

Vide os jornais diários e veja do que são capazes e que poder têm o clã e os seguidores da família Sarney. Barrar um dos maiores jornais do país não deixa de ser um exemplo estrondoso. Triste, mas estrondoso.

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