Tribo Maasai, que habita entre o Quênia e o norte da Tanzânia

Ainda hoje o continente africano é tratado como se fosse um subcontinente, um fardo dos países industrializados, uma pecha do sistema capitalista que não tem condições de fazer parte do 'jogo democrático'. Muitos levam a sério aquela frase segregacionista cunhada pelo célebre ex-presidente francês Jacques Chirac: "a África não está madura para a democracia".

Entretanto, é fácil cairmos nessa anedota ao depararmos com a situação de países como Niger, Congo ou Togo. Afinal, os antigos colonizadores africanos são os verdadeiros responsáveis pelas calamidades que hoje rondam o continente - assim como aconteceu com o Haiti.

A jornalista francesa Anne-Cécile Robert, especialista em relações europeias com a África, publicou no "Le Monde Diplomatique" (que teve uma tradução para a publicação brasileira - muito boa, por sinal) uma reportagem sobre os rumos democráticos do continente na década de 2000. Em sua apuração, relatou que a democratização à africana é delegada de clientelismos e opressão aos adversários. Tudo isso sustentado pelas colônias francesas e americanas.

O ex-ministro do Togo Atsuste Kokouvi Agbobli, que fora encontrado morto numa praia em 2008 (provavelmente assassinado), fez um importante e reflexivo questionamento: "É possível democratizar países dominados pelo estrangeiro?". 

Vale ressaltar que o domínio estrangeiro ainda presente na África decorre de sua abundância em bens naturais. Essa elite exploradora, para sustentar seu domínio, faz o que pode para bagunçar as nações, promovendo governos tirânicos que suscitem em violentas guerras civis. Assim, abstratamente o grupo estrangeiro pode reforçar seu tom acalentador e explorar à vontade o rico território africano. Um militante do Congo testemunha: "Em meu país, onde a empresa de petróleo Elf exerceu por muito tempo papel dominante, não hesitando em apoiar um golpe de Estado, existe a legitimidade democrática e a legitimidade petrolífera".

Segundo Anne-Cécile, "as populações perdem a confiança nos partidos e, diante da descrença na democracia, militares se colocam como justiceiros e a rebelião armada se torna uma solução lógica".

Nesse jogo de onde o mais forte faz o que pode para enfraquecer mais ainda os que não têm poder, nações inteiras são comprometidas pelas tiranias dos golpes de Estado patrocinados. Em 1961, o serviço secreto belga e a Central Intelligence Agency (CIA) articularam o assassinato do primeiro-ministro do Congo independente  Patrice Lumumba, o primeiro a declarar que a África tinha que se desvincular economicamente da Europa. Na Burkina Faso, o mesmo episódio se repetiria: o primeiro-ministro Thomas Sankara seria assassinado em golpe de Estado organizado pelas redes Françafricanas em 1987.

Diante deste cenário, percebe-se que o presente da África é resultado de um continuísmo da repressão europeia do passado. Apesar dos inúmeros avanços democráticos e humanistas no continente, como a chegada de Nelson Mandela à presidência sul-africana - pondo fim a décadas de segregação racial do apartheid -, a participação de todos os partidos políticos nas eleições presidenciais do Togo e a alçada ao poder dos civis após dura ditadura no Mali, o continente ainda sofre com, segundo termos da jornalista, "processos malconduzidos". Na verdade, são tentativas de manter a estabilidade das nações após a intervenção estrangeira. Quanto a isso, a comunidade internacional prefere nem abrir os olhos; negligencia, para não por em xeque sua parcela de culpa.

Intelectuais africanos defendem uma nova unidade fortificada do africanismo para escapar do domínio estrangeiro. O escritor camaronês Celestin Monga diz que o continente "sofre de quatro déficits profundos que se reforçam mutuamente: déficit do amor-próprio e da confiança em si; do saber e do conhecimento; da liderança; e da comunicação".

Já o escritor queniano Firoze Manji é a favor do papel das novas tecnologias na formação à distância sobre "assuntos variados como a defesa dos direitos humanos, a prevenção dos conflitos ou o papel da mídia". Ele aposta nas novas gerações, os "cheetah", "que não sofreram os traumas da colonização e nem querem ouvir falar deles".

Seria necessário uma mobilização popular africana para romper com a dependência europeia e americana, mas, quem garante que as superpotências não revidarão com mais força?

Em tempos de Copa do Mundo na África, essa é uma questão que deve, sim, entrar em pauta.


** (Referência: Anne-Cécile Robert, "África, entre a democracia e os resquícios autoritários", Le Monde Diplomatique Brasil, fevereiro de 2010, pg. 31.)


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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O que acontece com a Itália?


Algo estranho paira sobre a Itália. Difícil é interligar tudo isso com a ressaca pós-recessão econômica, crise de identidade do sistema capitalista ou mesmo com a revolução cultural dos anos 2000 com a virose informativa da internet.

Justo a Itália, que sempre fora conhecida como o berço da civilização mundial, mesmo que a custo de muito sangue e violência na Roma Antiga. Ou aquela Itália que atingiu a aura de sua fase artística com o Renascentismo de Michelangelo, Leonardo Da Vinci e Rafael. Ou, ainda, aquela Itália que trouxe novos rumos para o Cinema Mundial com as obras de Fellini, Vittorio de Sica, Paolo Pasolini e Roberto Rosselini. 

Mas, não, de todas as facetas italianas, a tecnologia provou que os jovens patrícios preferem rememorar os discursos do ditador Benito Mussolini, que criou o fascismo e deu margem para o fanatismo nazista que se propagou pela Alemanha, originando a Segunda Guerra Mundial. Segundo reportagem da Folha On-line, o aplicativo do iPhone que reproduzia os discursos de Mussolini bateu os recordes de downloads na Itália. Entretanto, o material foi retirado de venda por problemas de direito autoral. (Mas pode voltar a ser vendido se o problema for resolvido.)

Entre os discursos mais baixados, estava o que Mussolini pronunciou em 1938 em Trieste sobre a hegemonia do europeu, de cunho racista.

Soma-se a esse espectro o fato de que a popularidade de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro da direita que esporadicamente é comparado ao ditador fascista Mussolini, elevou sua  popularidade em dezembro de 2009 de cerca de 48% para quase 56%, principalmente após um golpe violento que recebera de um enfermo que, segundo as autoridades, "não tinha seu juízo perfeito".

Hoje, o jornal argentino Página 12 noticiou que Berlusconi, que tem amplo apoio na Câmara dos Deputados e no Senado, foi absolvido por não comparecer ao tribunal em que era processado por fraude e corrupção. O político líder da oposição Pierluigi Bersani ironizou o caso: "Até hoje, um primeiro ministro acusado que não comparecia a um processo devia justificar suas razões. A partir de amanhã, pode faltar ao tribunal porque deve trabalhar tranquilamente".

Juntando todos esses fatos, a única conclusão que pode se chegar é que algo estranho está acontecendo na Itália. É perigoso argumentar que uma possível ascensão do fascismo esteja ocorrendo, mesmo que debaixo dos panos, pois nenhum fato concreto aponta para este sentido. Talvez a recessão econômica, assim como aconteceu com o crash da bolsa de Nova York em 1929, dê margem para maior protecionismo nas transações comerciais e, posteriormente, possa criar movimentos nacionalistas mais intensos, assim como ocorreu com a ideologia fascista na Itália em 1933 - quatro anos após a crise.

Ainda é cedo para manifestar qualquer opinião. Enquanto isso, espero que os aplicativos italianos para iPhone também valorizem as cenas cinematográficas de Fellini, os quadros barrocos de Caravaggio e as esculturas renascentistas de Michelangelo. Já dizia Eric Hobsbawm, no seu clássico "Era dos Extremos", que a memória é a maior virtude da História. Foi a ausência da memória que desencadeou numa série de conflitos civis que marcaram o 'breve século XX'.

Talvez agora o cuidado que se deva tomar seja outro: deve-se precaver para que não haja uma 'distorção da memória'. Ou todos os tristes eventos do século passado podem se repetir, da forma mais catastrófica possível.


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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Grandes Álbuns #6: Rage Against The Machine (homônimo)



"Killing in The Name", certamente, é a música de rock que mais ouvi na vida. Foi ela que me introduziu às batidas pesadas, às letras revolucionárias, aos vocais estridentes e à performance verborrágica de um dos maiores vocalistas que já ouvi, Zack de la Rocha.

Não é a toa que esta canção é a principal do álbum homônimo de Rage Against The Machine, o primeiro que lançaram, em 1992. Lembro que quando comecei a escutá-lo, sempre me apoiava nas letras dos encartes. Justamente "Killing In The Name", a música que mais gostava, não tinha a letra reproduzida - o que me instigava a apertar o "Repeat" incansavelmente na tentativa de captar o sentido da canção.

Só a introdução melancólica do bumbo do baterista Brad Wilk já lançava o tom sórdido da canção. Eis então que entra a síncope do baixo de Timmy Commeford introduzindo o riff inicial da guitarra do cientista político formado em Harvard, Tom Morello. 

A letra é absolutamente politizada, como todas as canções do RATM. Fala da submissão generalizada dos cidadãos àqueles que dizem ter lutado em prol da liberdade de todos, usando como justificativa as "badges", ou medalhas honorárias. O termo "They are the chosen whites" ["Eles são os brancos escolhidos"] remonta à sociedade separatista construída pelo eurocentrismo. E olha que no grupo não há nenhum negro - todos são brancos, "escolhidos" ou não.

Outro tema recorrente nas letras de RATM é a violência, seja a opressão do Estado ou o instinto animal predominante daquele que não teve escolhas na vida. "Bullet In The Head" é a pura síntese disso. O Estado é o controle máximo de uma sociedade e não hesita em usá-la como cobaia de suas invencionices, até que um dia eles lhe enviam uma bala na cabeça. "They say jump / and you say how high / your brain dead / you gotta a fuckin' bullet in the head" ["Eles mandam pular / você diz o quão alto / seu cérebro apaga / você recebeu a porra de uma bala na tua cabeça"].

Mais de todos os temas que intrigam Zack de la Rocha e companhia o que mais se faz presente é a alienação, como também pode ser percebida nas duas canções citadas. Em "Know Your Enemy", os riffs característicos de heavy metal são a base do fervor de um cidadão que nasceu sem escolhas e que se mostra irritado com todo o aparelho estatal. Para ele, os inimigos são 'todos aqueles que me ensinaram a lutar comigo mesmo'. Quem, afinal? "All of which are American dreams" ["Todos eles são os sonhos americanos] - uma evidente crítica à hegemonia americanista e ao povo que sucumbe aos ideais dos mandatários norte-americanos.

Das referências musicais, pode-se dizer que o RATM é bastante influenciado pela afronta social do Public Enemy e dos preceitos do hip hop em geral; das guitarras barulhentas e da politização das letras do Living Colour, Bruce Springsteen e Cypress Hill. Também pode-se perceber o vazio niilista fortemente disseminado pelo punk rock, principalmente da estética criada pelos The Stooges. (Antes da dissolução do grupo, em 2000, eles gravaram covers dos artistas que mais lhe serviram de influência, incluindo canções de Bob Dylan e Afrika Bambaataa).

A liberdade de pensamento (influenciada pelo pensamento de George Orwell no livro "1984") é o tema de "Freedom", a incitação às revoltas populares nos moldes do idealismo de Che Guevara marca "Township Rebellion", o ato punk de destruir tudo que se vê pela frente está explícito em "Bombtrack" e o clamor dos rappers de lutarem pelo seu papel na sociedade é evidente em "Take The Power Back". Os instrumentistas, principalmente o exímio guitarrista Tom Morello, conseguem assimilar o tom nervoso dos vocais, trazendo sonoridades que instigam a revolta, a vontade de se libertar de algo ou mesmo o simplório hábito de pular do chão.

De forma direta, influenciados pelo som pesado do rock e do hip hop e revoltados com a onipresença do comodismo com o passar das eras, munidos de microfone, guitarra distorcida, baixo com o grave no talo e bateria marcando o compasso rítmico, Rage Against The Machine alçou, sem paralelismos, um lugar de destaque no rock pós-anos 80. 

Aliás, foi graças a este álbum que me interessei pelo ritmo, pelas causas sociais e pela leitura de Karl Marx. Ainda hoje, consigo escutá-lo como se fosse a primeira vez e digo: ainda dá para extrair muita coisa.




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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

São Paulo, essa terra do tão distante


Em minhas andanças pelo Brasil adentro, cheguei a conhecer muitas pessoas que tinham interesse em pelo menos conhecer ou passar uns bons dias em São Paulo. Meus parentes nordestinos que vieram da Zona da Mata de Pernambuco para tentar ganhar a vida na capital paulistana gostam de trazer outros conterrâneos para trabalhar por essas bandas. Segundo eles, aqui é a 'terra do dinheiro'.

Ao mesmo tempo que vêm pra cá, eles se sentem reclusos diante da grandeza desta cidade. Quando moravam no interior do Nordeste, se sentiam livres para se deslocarem para onde quer que fossem: podia ser a pé, de bicicleta, nos carros-de-boi, motocicletas... de algum jeito chegavam a seus destinos.

Rogério - nome fictício para se referir a um primo meu que mora em Sampa - mora na região de Parelheiros (Zona Sul) e trabalha seis dias por semana em uma metalúrgica. Trabalha um dia no final de semana para compensar com hora extra o pouco salário que ganha. Já vive por aqui há mais de quatro anos. Certa vez, quando dei uma passada em sua casa, mencionei que ia dar uma volta na Avenida Paulista para encontrar uns amigos e ir para a Rua Augusta. Tímido, ele comentou que devia ser muito bonita a paisagem de lá. Sem hesitar, chamei ele para vir comigo e ele apressou-se em colocar a melhor roupa que tinha.

Ele ficou deslumbrado com as pessoas que circulavam no local, com os prédios de arquitetura moderna e todo o clima que envolve a Av. Paulista. De tanta informação, ele não conseguia descrever o que sentia passeando por aquelas calçadas.

Entrando nos bares, lanchonetes e regiões comerciais de lá, ele percebeu que a maioria dos trabalhadores ainda preservava um sotaque nordestino. Expliquei que são poucos os paulistanos de raiz que existem. Geralmente, aqueles que o são, fazem o que podem para viajar no final de semana porque não aguentam o trânsito caótico ou o clima instável. É como dizia o Caetano Veloso na letra de "Sampa": aqui é a terra dos "novos baianos" e eles "podem te curtir numa boa".

Rogério me disse que muitos colegas de trabalho não sabem informar onde chegar em determinados locais. "Como pode uma pessoa morar em uma cidade e não saber dar uma informação?" Respondi que é pelo fato da cidade ser grande demais, uma das maiores do mundo. "Mas, mesmo assim, a gente vê que às vezes um cara sabe dar a informação mas não dá por preguiça de falar, pela pressa, sei lá". É a tal hostilidade típica do cidadão apressado de São Paulo.

De qualquer forma, eu mesmo não conheço muitos lugares desta cidade. Para quem não tem como se deslocar com um transporte particular, tudo é muito distante. De fato, a deficiência do transporte coletivo é um empecilho para desfrutar de cada espaço que São Paulo oferece. Rogério tem a oportunidade de conhecer muitas coisas, mas fica retraído porque sabe que as pessoas não são de confiança e sabe que o ônibus pode deixá-lo na mão. Ainda tem que andar de mãos dadas com algum ser citadino que tenha paciência de apresentar a cidade. E olha que ele mora aqui há quatro anos!

São Paulo, muito além de ser a terra das oportunidades, é uma terra onde só quem tem dinheiro pode aproveitar. Como se já não bastasse a adaptação a um ambiente de estresse e correria, Rogério ainda tem o desafio de se enquadrar nos parâmetros sociais desta cidade para encontrar algum tipo de diversão. Por mais que reclame do preço do feijão, da cerveja e da passagem de ônibus, faz o que pode para não passar os dias de folga enfurnado assistindo Faustão. E, para isso, não adianta: tem que coçar o bolso e ter coragem para enfrentar pelo menos uma hora de transporte para chegar aonde deseja.

* É com atraso, mas pode considerar este post meu 'presente' pelo aniversário de 456 anos de São Paulo.

** Sei que letra é de Caetano, mas prefiro escutá-la na voz de Gilberto Gil. No vídeo, a música é cantada na gravação de seu álbum ao vivo "Unplugged", de 1994:

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Créditos da imagem: Gorka Lejarcegi (Jornal El País)

A catástrofe que ronda o Haiti é um claro exemplo para definir qual o papel de cada comunidade no mundo. Diante dos destroços e da triste calamidade, o que se vê é oportunismo em excesso para ver quem contribui mais no 'Show da Doação' do Haiti.

O problema não é a filantropia, mas o que está por trás dela. No momento em que a tragédia se tornou o epicentro dos noticiários, a China, país que mais cresce na atualidade, não poupou esforços para anunciar um envio de US$15 milhões aos haitianos. Para não ficar pra trás, Estados Unidos apressou-se em enviar auxílio financeiro, seguido da Comunidade Europeia.

Dá a entender que a condução da enorme crise que se estabeleceu no Haiti sirva de pretexto para que os mais ricos provem que somente extensas quantias de dinheiro podem salvar aquela nação da miséria eminente. Com isso, constrói-se a falsa ideia de que, se não fosse a ajuda dos gigantes do globo, aquele pedaço de terra (e sua população) sofreria o risco de ser deletado do mapa.

Acontece que, há tempos se fala em um investimento de infra-estrutura e de melhoria social no país. O Brasil já chegou a avançar esse debate, mas foi barrado pelo descaso dos Estados Unidos. Antes da calamidade, o Brasil tinha o maior contingente de tropas fora do país desde a Segunda Guerra Mundial: cerca de 1.500 soldados ocupavam as ruas de sua capital, Porto Príncipe. O motivo da ocupação (desde 2004) era garantir a segurança do país mais pobre do hemisfério ocidental - naquela ocasião, o Haiti era a 154ª colocação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), 23 posições a frente do último (o Niger).


Mas a verdadeira negligência humanitária das doações não demorou a mostrar sua face. A falta de organização na entrega do material doado (principalmente comidas) é comparável ao tratamento agressivo dos treinamentos do BOPE. Quando se tem o poder, e sabe-se que muitos dependem dele para fazerem parte do jogo capitalista, o senso de humanismo diminui e, em troca, adquire-se comportamentos elitistas que não permitem o contato em mesmo nível com o outro menos abastado.

Afinal, o que mais explicaria o terrível fato de arremessar alimentos de helicópteros amplamente protegidos, enquanto os miseráveis na terra plana batalham para conseguir levar o tão escasso prêmio da refeição doada por entidades? Quer dizer que, porque sofreram de uma causa ambiental, as autoridades podem se dar ao luxo de tratá-los como animais enjaulados naquele mísero pedaço de terra?

A quantidade material tomou o espaço da interferência humana. Para se ter uma ideia, o Exército brasileiro, que tem a missão de proteger cidadãos da violência (que aumentou depois do terremoto com saqueamentos, furto de comida, repressão policial para conter os tumultos, etc), são os poucos responsáveis pela entrega dos alimentos em solo. Assustados com o motim que se segue às entregas, eles abandonam os pontos estratégicos rapidamente para evitarem um conflito com os civis; mas, neste ato de prevenção, acabam suscitando um conflito entre civis. Pois nem todos têm a 'sorte' de receber os alimentos doados.



PEQUENO RESGATE HISTÓRICO

Peter Hallward, colunista do jornal britânico "The Guardian", lembrou que grandes catástrofes naturais, como terremotos, já aconteceram anteriormente no Haiti. Mas ele atenta ao fato de que o maior problema do país é a pobreza; e a pobreza, a consequência brutal da colonização.

No século XVIII, o Haiti já chegou a ser a colônia francesa mais eficiente em termos de produtividade de açúcar, cacau e café, apesar do sistema opressivo dos europeus. Mesmo assim, em 1794 foi o primeiro país do mundo a abolir a escravidão após uma grande revolta popular.

O país tentou estabelecer uma política independente, mas o ex-escravo Toussaint Louverture, que liderava a população haitiana, foi capturado e morto pelos franceses, que incitaram a proclamação da independência e bloqueram comercialmente o país por mais de seis décadas. Para sair da reclusão, os haitianos tiveram que pagar uma absurda quantia para os franceses, abalando imensamente sua economia.

Em 1915, os norte-americanos ocupam o Haiti com a premissa de organizarem politicamente o país. Na tentativa de prevenir o cargo de presidência aos mais pobres e evitar manifestações populares, eles apoiaram em 1957 o político François Duvalier, o Papa Doc, para administrar o país. Papa Doc instaurou uma ditadura que não permitia articulações políticas contrárias e espalhou a política do medo, perseguindo a Igreja Católica e disseminando a exploração vodu. Essa perseguição perpetuou-se até a década de 1980, com seu filho Baby Doc no cargo.

Tempos depois, em 1990, o padre católico Jean-Bertrand Aristide assume o poder com 75% dos votos da população haitiana em eleição democrática, mas é deposto pelos generais e obrigado a se exilar nos Estados Unidos. Como retaliação, a comunidade internacional decide bloquear o comércio com o país, desestabilizando de vez sua economia. Em 1994, Aristide volta ao poder, mas assume um Haiti mergulhado na miséria e no caos da violência.

A partir de então, a situação só tem piorado. Sem articulação política sólida e com uma economia estagnada, o país não tinha condições de manter sua população de mais de 8 milhões de pessoas de forma eficiente. Para se ter uma ideia, cerca de 75% da população vive em situação de miséria: 56% delas vive com menos de $1 por dia.

Portanto, a dívida das grandes nações com o Haiti é imensa. Séculos de colonização e exploração culminaram em um desastre civil que o tornou um dos piores países para se viver. Sem dinheiro, sem força política, sem aliados, o Haiti é nada mais que um espaço ocupado. Com o terremoto, passou a ser um fardo para as nações. Só que, deste fardo, a comunidade internacional pretende realçar sua abstrata força voluntária e trata os cidadãos haitianos como se fossem meros animais, meros destroços, meros objetos inanimados que precisam se ver livres da sujeira de alguma forma.

A demagogia construída com a condução da crise haitiana chega a ser maior do que os vastos problemas que ela enfrenta. As doações continuam a ser feitas, o que não deixa de ser uma boa notícia diante da catástrofe. Mas, enquanto não houver organização para distribuir todas as arrecadações, a situação pode piorar. No momento, isso é o mínimo que a comunidade internacional tem que se dispor a fazer.

E, enquanto isso, pensar em uma possível reconstrução de Porto Príncipe, pois a miséria lá instaurada, em larga escala, é a causa do enriquecimento daqueles que hoje mandam no globo.


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Muitos relembram os anos 80 como uma década de muita produtividade artística, principalmente no âmbito do rock; foi uma época marcante, porque o metal entrava em cena e impressionava os ouvintes com canções que enfatizavam a diversão e o hedonismo.


O fato é que essa foi a década em que o rock mais decaiu. Talvez a morte de John Lennon e a ressaca pós-60 tenha influenciado bastante para que o som se tornasse mais diluído e as letras, decadentes. O que salvou a música nesse período, sem sombra de dúvidas, foi a invenção do hip hop. Entretanto, de tão diverso que era, o hip hop era, ao mesmo tempo, um movimento de resistência das raízes negras do soul e do funk e uma crítica voraz ao establishment, dando voz às minorias periféricas e contrariando o conservadorismo das convenções sociais.


Public Enemy foi quem melhor incorporou os elementos de um hip hop sem papas na língua e, ao mesmo tempo, divertido. Movidos pelo sentimento da revolta, trouxeram em suas letras o peso da crítica política com bases de música negra, para enfatizar a causa anti-preconceito que aderiram explicitamente. 


A personificação do MC, que já se mostrava presente com as músicas de Run DMC e as experimentações musicais de Afrika Bambaataa, teria um peso maior com a bombástica atitude de Chuck D e o divertido Flavor Flav nos vocais, Professor Griff - em algumas vezes no vocal e na maioria delas na bateria - e o DJ Terminator X, que mostrou o poder das pick-ups no ritmo, improvisando 'scratches' com virtuosismo em cima de bases que vão de James Brown à Anthrax.


"It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" é o segundo álbum do grupo, lançado em 1988 pela Def Jam Records. De fato ele é uma versão melhorada da aparição meteórica do P.E. em seu primeiro álbum "Yo! Bum Rush The Show", de 1986. 


Quando formou o grupo em 1982, Chuck D pegou a expressão "Public Enemy number one" utilizada em uma música intimista de James Brown. Sua preocupação com o sistema e a percepção de que ele era o culpado pela exclusão dos negros e mais pobres foi fator decisivo para que ele tomasse a frente dessa guerra e disparasse versos flamejantes, que atacam sem dó seus mantenedores, desde quando era um jovem MC nas rádios de Long Island, Nova York. "Don't Believe The Hype" traz a síntese de seu papel como músico. "About the gun... / I wasn't licensed to have one / The minute they see me, fear me / I'm the epitome - a public enemy" ["Sobre as armas... / Não tenho licença para obter alguma / No minuto que me veem, estremecem / Sou o resumo da ópera - um inimigo público"].


Apesar de ter uma causa social enquanto música, o P.E. não se prendeu a regionalismos ou adquiriu outros preconceitos ao defender os pobres e negros em suas canções. Em "Bring The Noise", além de tomarem os holofotes, estampam o som para o mundo convidando artistas renomados a escutarem o que tem pra dizer: "Beat is for Sonny Bono, beat is for Yoko Ono" ["A batida é para Sonny Bono, a batida é para Yoko Ono"]. 


Para provar o sincretismo a que estavam dispostos em aderir em suas canções, em "She Watches Channel Zero?!?", eles usam o sampler de um riff de rock pesado, "Angel Of Death", do Slayer, aproximando o peso das guitarras do rock com o peso das letras de rap.


Flavor Flav, que nas palavras de um dos fundadores do Beastie Boys, Adam Yauch, traz uma "aleatoridade selvagem" ao grupo junto com Chuck D, se apresenta como uma lâmpada fria, um complemento necessário para que as vozes do Public Enemy ecoem para todos os lados na faixa "Cold Lampin' With Flavor". Ainda nas apresentações, "Terminator X To The Edge Of Panic" anuncia a maestria do DJ numa base pesada de funk.


Seguindo uma linha cronológica de crítica, como se fosse um material bem elaborado nos moldes de uma tese argumentativa, "It Takes A Nation..." traz pesos pesados como "Louder Than A Bomb", na qual Chuck D assume um papel de delator das mentiras que a mídia e a política sustentam para diminuir a participação dos menos abastados nas decisões da sociedade. Sabendo que nem todos têm a atitude de confrontar os poderosos, Carlton Douglas Ridenhour explica a origem de seu pseudônimo: "Because D is for Dangerous".


Funk acelerado até o talo, "Caught, Can I Get A Witness?!?" é temperada com os scratches de Terminator X para relatar a dificuldade dos sentenciados à prisão em defender suas posições - afinal, eles são considerados mazelas da sociedade e não interferem no sistema macrofinanceiro. Quanto mais 'delinquentes' atrás das grades, melhor. E, quando se menciona 'delinquentes', extirpa-se o direito de defesa. Sem testemunhas, Chuck D conta as condições subhumanas do cárcere, onde "a bagagem vale mais que ouro".


Look at how I'm livin' now, lower than low [Veja como vivo agora, pior que os piores]
What a sucker know [O que um otário sabe]
I found this mineral that I call a beat [Achei esta fonte que chamo de batida]
I paid zero [Não paguei nada]
I packed my load 'cause it's better than gold [Embalei minha carga porque é mais valiosa que ouro]
People don't ask the price, but its sold [As pessoas não perguntam o preço, mas é vendido]
They say that I sample, but they should [Dizem que sou amostrado, mas eles deveriam]
Sample this my bit bull [Mostrar minha pequena oferta]


Falando em sistema prisioneiro, "Black Steel in the Hour of Chaos", certamente uma das melhores composições do grupo, relata o momento de fuga de encarcerados que representam tudo aquilo de mau que a sociedade prefere esconder. Critica o sistema de prisão e o consequente aumento de preconceito racial, pois a maioria dos presidiários é negra. Ironizando o 'negro' como pejorativo, Chuck D usa o termo "Black Steel" para se referir às armas dos carcereiros. Numa fábula periférica, narra a fuga dos prisioneiros, enquanto os agentes federais vacilam. Ele conta que a intenção da fuga é a volta para casa, e não a volta das práticas contrárias à lei. 




Em "Black Steel in the Hour of Chaos", P.E. usa uma base da música "Hyperbolicsyllabicseequedalymystic", do soulman Isaac Hayes. De forma abrupta, já inicia uma crítica ferrenha ao governo: "I got a letter from the government, the other day / I opened and read it, it said they were suckers" ["Recebi uma carta do governo, outro dia / Abri e li, dizia que somos trouxas"].


"Rebel Without a Pause", talvez a mais conhecida do álbum, é uma alusão ao filme consagrado de James Dean ("Rebel Without a Cause") e uma mescla de bases, scratches e indignações sociais, políticas e musicais. Com toda a maestria da equipe do The Bomb Squad, incluíram bases de "Get Up Offa That Thing" e "Funky Drummer", do reverenciado papa do funk James Brown. 


De forma irreverente e politizada, Public Enemy eternizou o hip hop com "It Takes a Nation..." e mostrou as diretrizes da crítica social para os grupos posteriores, conquistando a congratulada 48ª posição dos maiores álbuns de todos os tempos pela Rolling Stone. Sem nenhum preconceito (apesar da árdua batalha contra ele) e sempre abertos às experimentações, o grupo redefiniu a música negra e trouxe novas possibilidades ao gênero, sem abandonar as raízes musicais. O legado? Pode colocar na listinha aí Racionais, Snoopy Dogg, Beastie Boys, Dr. DRE, R.Z.O., Wu-Tang Clan e muitos, mas muitos outros mesmo. 





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Há bastante tempo a discussão sobre público e privado deveria ser tratada com mais seriedade. Afinal, lá se vão 10 edições do pomposo 'Big Brother Brasil', programa em que as individualidades de cada participante passam a ser o espetáculo da nação e ditam as novas tendências comportamentais e mercadológicas.

O privado torna-se interessante porque, como enfatizei no post anterior, serve como fuga a uma realidade chata e sem graça. Observar o outro é essencial para que possamos captar os pontos altos de cada integrate - como forte personalidade ou até mesmo humildade - e nos dê informação para rejeitarmos aquilo que realmente é démodé - como vestimentas inadequadas, comportamentos intempestivos ou mesmo um sotaque muito aparente.

De certa forma esse 'encargo social' dos participantes e a atenta passividade dos espectadores gera uma forte pressão comportamental. Pois o 'Big Brother' é o atual dos atuais, mais pop que Andy Warhol, um verdadeiro símbolo da modernidade e da necessidade de estar integrado a ela.

Ser parte de uma tendência é a essência para que os próprios participantes entrem no jogo abstrato dos parâmetros da moda. Porque o reality show não acaba quando o vencedor leva o cobiçado prêmio para casa. A imediata repercussão do pós-teste é que vai mostrar se eles tiveram notas positivas ou não, como um ensaio para revistas masculinas ou homossexuais, aquela participação nas novelas noturnas ou mesmo um pequeno escândalo que eleve sua exposição na mídia.

Não deixa de ser uma estratégia eficiente iniciar o 'Big Brother' logo no começo do ano. Como diz um velho ditado: "Ano novo, vida nova". É como se o programa estivesse convidando cada espectador para fazer parte do novo que está por vir através de personagens selecionados que têm algo em comum com cada um que os assiste: o anonimato.

Diferente do legado das celebridades, que geralmente esbanjam suas fortunas em revistas de 'comportamento social' (é bom colocar as aspas mesmo nisso aí), os participantes de um reality show já tiveram dificuldades econômicas um dia, já tiveram que ralar para obter alguns bens materiais... Claro que essa regra vale só para alguns, senão o programa ilustraria com muito veracidade a realidade da maioria e perderia sua graça.

Deve fazer parte do jogo também aqueles que já foram bem-sucedidos na vida ou que tenham proximidade com a riqueza das celebridades. Por isso mesmo, o 'Big Brother' sempre traz cidadãos anônimos que tenham capacidade monetária de preencher essa lacuna fantasiosa.

É por esses e muitos outros motivos que o 'privado' invadiu a esfera do que é 'público'. Aprender com os erros dos outros é muito mais vantajoso do que cometê-los; espelhar-se na experiência dos outros é mais fácil do que dar a cara pra bater. E, claro (como não podia deixar de existir), ver a briga dos outros, a diferença que gera o conflito, as polêmicas que acercam cada participante, a competitividade excessiva que desmorona amizades e arrecada inimigos, as verdadeiras 'ações' que dão andamento ao programa são os principais atrativos de um reality show como o 'Big Brother'.

Para endossar a onipresença do programa, a publicidade investe (e arrecada) pesado. Diante de tanta força publicitária, os demais canais de rede aberta, vendo que não conseguem abatê-lo, começam a entrar na vida privada de cada participante do 'Big Brother', na tentativa de se integrarem e passarem a mão em uma pequena fatia do bolo de um reality show tão lucrativo.

Com os holofotes voltados para o programa, nem mesmo jornais considerados sérios conseguem ignorá-lo. Diante de tanta repercussão, assuntos que realmente têm cunho social são ofuscados pelas pequenas intrigas ocorridas naquela mansão fechada. A participação do público com os acontecimentos que realmente fazem parte de seu cotidiano são deixadas de lado e dão lugar às 'fantasias da vida real' que o 'Big Brother' pode lhes proporcionar.

Acaba tornando-se decepcionante, por exemplo, conversar com um espectador assíduo e notar que ele sabe o nome de todos os integrantes do 'reality show', mas não sabe quem serão os candidatos da eleição de 2010 e muito menos quais são aqueles que têm mais afinidade. Outros, nem sabem que o Lula não pode mais se candidatar novamente.

É isso que acontece quando o privado invade o público: as invencionices que tornam possíveis o 'mundo da fantasia' são informações mais relevantes do que os fatos que permeiam o nosso 'mundo real'. Ganha notoriedade aquilo que for mais confortante. E, nessa batalha, 'Big Brother' leva o filão de lavada.


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A chegada de "Avatar" nos cinemas gerou uma expectativa que, apesar de muitos considerarem fora do comum, não deixa de ser típica. Já adianto que ainda não assisti (mas ainda vou), mas já não espero muita coisa além de belos efeitos visuais e um roteiro à lá Marvel Comics. De fato, o que pesa na bigorna é a tecnologia incrível que o diretor James Cameron utilizou nos cenários e personagens. Isso é o que leva a geral pro cinema; de resto, o que vier é complemento.

O jornal "New York Times" publicou um artigo interessante sobre a necessidade imagética que os espectadores (principalmente os mais jovens) têm em relação aos filmes e seriados que assistem. O conteúdo ou um bom roteiro, por exemplo, ficam em segundo plano diante dos belos efeitos especiais que tornam uma cena espetacular aos olhos de quem assiste. É a chamada 'Era do DVD', que conquistou os aparelhos de televisão de forma tão abrupta que está moldando o comportamento geral dos verdadeiros ociosos da atualidade.

Tal comportamento impede que os jovens, por exemplo, apreciem antigos seriados que usavam os recursos tecnológicos da época para impressionar os espectadores. Uma clara evidência é o recente lançamento da saga inicial de "Star Wars", dirigida por George Lucas. Quem ainda não assistiu a primeira trilogia certamente deve ter gostado da recente.

Entretanto, o roteiro é tão atraente que qualquer espectador que gosta da série quer assistir todos os filmes, que tem continuidade com a primeira trilogia lançada nos anos 1970. Mas a série antiga ainda sofre relutância por parte dos novos fãs porque é incomparavelmente inferior em se tratando de recursos tecnológicos.

Como afirmou o crítico de artes do "New York Times" Neil Genzlinger "os garotos se sentem estúpidos" quando percebem falhas na produção de um efeito especial, por exemplo. É como se eles quisessem trazer para a realidade as fantasias da ficção para suprir uma frustração recorrente da tediosa e simplória 'vida real'. Se a fantasia consegue inescapar aos olhos nus, então ela é passível de ser compreendida como realidade.

Para ampliar os exemplos o jornalista Dave Itzkoff, do "New York Times", relembrou em seu artigo a antiga série F Troop, que dominou as telinhas americanas entre os anos de 1965 e 1967. Em uma comparação, mostra os efeitos utilizados para fazer a cena de uma fuga. Os cavaleiros que perseguem o personagem atiram flechas para tentar acertá-lo. Hoje em dia, fica evidente que já havia flechas por trás do chapéu do personagem para tentar criar o efeito do tiro.

Perceber tais falhas imagéticas acaba comprometendo a expectativa gerada, fazendo com que, consequentemente, o filme ou o seriado 'perca a graça'.

Justifica-se a repetida (por vezes bem acertada, por outras não) aposta dos diretores pelas séries mitológicas, como vampiros, monstros horrendos, heróis superpoderosos ou grandes titãs. Atrai multidões porque sempre englobam histórias que 'têm graça', já que escapam da dureza insana da realidade. "Crepúsculo", o milionário best-seller que conquistou de vez a nova geração, por mais que se enquadre nas tendências atuais, não deixa de ser o resultado de uma exatidão de fórmulas: é mitológico, tem carga de dramaticidade que condiz com o sentimentalismo adolescente e tem efeitos incríveis. Foi a essência para a criação de uma série da Warner que descaradamente bebeu da mesma fonte, o tal "The Vampire Diaries".

O que é fácil de observar é que inúmeros tabus são criados e reinventados para tentar cativar ainda mais a atenção dos espectadores. Além dos famigerados prêmios de bilheteria, congratulação de fãs-clubes e estatuetas preciosas, o establishment cria incontáveis listas paradigmáticas para fervilhar a produção cinematográfica hollywoodiana. Daí às vezes saem bons filmes, mas na mesma proporção de tampinhas premiadas em garrafas de refrigerante.

Com a crescente demanda de filmes deste gênero, torna-se cada vez mais eficaz a perpetuação dos arquétipos imagéticos no imaginário dos espectadores. É aí que entra o lucrativo negócio dos videogames e da indústria dos brinquedos, que pegam carona nos espetaculares filmes de ficção. A interação com os personagens de uma série, por exemplo, torna mais próxima a penetração em uma realidade inexistente, deixando os vislumbrados mais distanciados daquilo que é real.

Ou seja, ficção e realidade se misturam em uma batalha que sai vencedor aquele que for mais atraente - no caso, o abstrato se sobrepõe ao concreto. E isso se reflete na realidade. Afinal, é melhor viver uma realidade fantasiada ou buscar fantasias para moldar o real? Como diria o teórico Theodor Adorno, "como viver verdadeiramente em um mundo falso?"

De fato o refúgio dos efeitos se tornou a plena salvação de alguns roteiros pífios. O que vale é a tendência do momento: se algo dá certo, é melhor usufruí-lo até o desgaste, para depois encontrar uma outra tendência que supere o tédio. É como se fosse um tratamento terapêutico para calar o choro de criança: dá-se um chocolate para que ele pare de chorar, mais outro, outro e outro, até que ela enjoe e peça um novo sabor. E assim sucessivamente.

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Mais triste é saber que, além de sermos alvos das tendências, somos atraídos fortemente por elas. A "Era do DVD" não chegaria a este ponto se não tivéssemos fácil acesso a tudo o que gostaríamos com um simples clique de 'Download'. Na verdade, é errôneo criar diversos termos para tentar explicar a realidade que vivenciamos, quando já estamos nela desde que o homem inventou a roda. Criamos necessidades tecnológicas desde que nos entendemos por gente; o que muda é que já avançamos imensamente neste sentido, principalmente no século passado após a matança geral de duas guerras mundiais.

Por mais que defenda uma volta às origens e uma valorização maior aos esforços intelectuais da mente humana, não passo de um reles refém dos efeitos especiais e da fugacidade tecnológica. Não fosse isso, jamais escreveria um post em um blog, que é uma ferramenta oriunda das novas capacidades da tecnologia. Pelo jeito, como diria um amigo meu, "o esquema é ponderar".


Feliz Ano Novo à todos e boa 'ponderação tecnológica'.


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A insana honestidade do pênis, por Gay Talese



Gay Talese, às vezes, não é jornalista. Segundo os conceitos que se aprende na universidade, o jornalismo é regido por fórmulas de escrita, no qual a pirâmide invertida é a essência de uma notícia estruturada pela hierarquia da informação. Vítima de si mesmo, o jornalismo não é para poucos; é para muitos. Porém, são poucos os que conseguem transcender seu estilo textual informativo para algo agradável e prazeroso de se ler, como um romance.

Lemos jornais porque queremos nos informar; raros são os casos em que a forma em que a história é narrada nos agrada. Quando acontece, só nos domingos - e olhe lá! Talvez isso justifique porque a maioria dos leitores de jornais leem apenas 10% de todo seu conteúdo. Para ler mais, só sendo jornalista mesmo.

Gay Talese, se dependesse de jornal para viver, escreveria só aos domingos. Não são as poucas palavras difíceis nem a estrutura complexa de suas reportagens e textos que agradam, mas sua forma de abordar cada assunto, sua perspicácia em investigar todos os ângulos das temáticas e situar a informação a ponto de parecer que o leitor estava presente na hora dos acontecimentos.

Tudo isso, é claro, de uma forma simples. Essa é uma proposta do 'new journalism' americano, do qual Gay Talese é decorrente. Quer comprovar sua maestria? Então, leia o perfil para a "Esquire" que Gay Talese fez em 1965 de Frank Sinatra, sem nem ao menos conseguir entrevistá-lo. A reportagem é considerada uma das maiores belezas do jornalismo e, sem dúvida, o melhor perfil já escrito sobre Sinatra.

Estou lendo um livro dele, "A Mulher do Próximo" (1980), que revisa o conservadorismo sexual antes dos anos 1950 nos Estados Unidos até chegar na permissividade dos dias atuais, principalmente com a sociedade libertária dos anos 1960 e com a era da AIDS. Só que, para contar essa transição, Gay Talese traz personagens que servem de espelho para cada época tratada. Conta a história de Hugh Hefner, que criou a Playboy, de jovens que se masturbavam com revistas pornográficas vendidas ilegalmente e relata a violenta repressão dos conservadores reacionários que queriam proibir a vulgaridade social, no fim do século XIX. Além disso, traz exemplos de casos sexuais nos anos 60 com histórias reais, apuradas de um jeito que só Gay Talese saberia expor.

Desnecessário argumentar que o livro é fascinante. E é por isso mesmo que me senti na obrigação de trazer um trecho de sua obra, talvez o trecho considerado mais polêmico. Gay Talese discorre sobre a subserviência e a fraqueza mental que o homem está submetido à seu pênis. Graças às necessidades fisiológicas e repulsas masturbatórias, o homem reduz sua mentalidade ao nada e dá lugar ao desejo incontrolável de satisfazer as vaidades manifestadas por seu pênis.

Para explicar melhor, peço licença ao escritor americano para publicar um pequeno trecho de sua obra:

O texto erótico muitas vezes leva à masturbação, e isso era motivo suficiente para tornar controverso o romance de (D. H.) Lawrence (autor de "O amante de lady Chatterley"). Mas havia mais: por meio da personagem do guarda-caça, ele explora a sensibilidade e o distanciamento psicológico que é comum o homem sentir em relação a seu órgão genital; de fato, o pênis parece ter vontade própria, um ego maior que seu tamanho e é frequentemente constrangedor por causa de suas necessidades, seus fascínios e sua natureza imprevisível. O homem sente, às vezes, que o pênis o controla, leva-o para o mau caminho, faz que implore favores à noite cujos nomes prefere esquecer na manhã seguinte. Seja insaciável ou inseguro, o pênis exige provas constantes de sua potência, introduzindo em sua vida complicações indesejadas e repetidas rejeições. Sensível, mas capaz de recuperação rápida, igualmente disponível dia e noite com um mínimo de persuasão, ele tem se desempenhado com decisão, embora nem sempre com habilidade, por uma eternidade de séculos, sempre procurando, sentindo, expandindo-se, explorando, penetrando, pulsando, murchando e querendo mais. Sem jamais esconder seu interesse lascivo, é o orgão mais honesto do homem.

É também um símbolo da imperfeição masculina. É desequilibrado, assimétrico, pendente, frequentemente feio. Mostrá-lo em público é "exposição indecente". É muito vulnerável, mesmo quando feito de pedra: os museus estão cheios de figuras hercúleas com pênis lascados, cortados ou completamente decepados. Os únicos que sobrevivem sem danos parecem ser aqueles desproporcionalmente pequenos, criados por artistas que talvez não quisessem intimidar os órgãos menores que o normal de seus patronos. Na arte religiosa, o pênis é muitas vezes representado como uma serpente, esmagada pelos pés da Virgem Maria; desde o século XI, os padres, aderindo ao voto de celibato, têm resistido a sua tentação cobiçosa. A masturbação sempre foi considerada pecaminosa pela Igreja, e há muito tempo recomenda-se um chuveiro frio para os paroquianos solteiros como uma maneira de afogar as primeiras ebulições da ascensão da paixão.

Apesar de a força moral da tradição judaico-cristã e da justiça ter procurado purificar o pênis e restringir sua semente à instituição santificada do matrimônio, ele não é por natureza um órgão monógamo. Desconhece códigos morais, foi projetado pela natureza para o esbanjamento, adora a variedade, e nada, exceto a castração, eliminará seu pendor para a prostituição, a fornicação, o adultério ou a pornografia.

A pornografia atrai especialmente o pênis dos homens que não têm meios para pagar prostitutas ou sustentar amantes, ou que são feios ou tímidos demais para conquistar mulheres, ou ainda que estão temporariamente isolados delas (em prisões e hospitais, por exemplo), ou que desejam continuar fiéis ao casamento em todos os aspectos, exceto quando se entregam a uma fantasia orgástica com uma revista, ou quando, durante a relação sexual matrimonial, imaginam que sua esposa é outra mulher. Isso se chama "superimposição". É a forma mais comum e privada de infidelidade no mundo e sua estimulação não depende da pornografia.

Todos os dias, o pênis é vítima de visões sexuais na rua, nas lojas, nos escritórios, nos outdoors e nos comerciais da televisão; é o olhar malicioso de uma modelo que aperta a pasta de dentes, os mamilos que se imprimem na blusa de seda da recepcionista da agência de viagem, o bando de nádegas jovens em jeans apertados que sobe pela escada rolante da loja, o perfume que emana do balcão de cosméticos: almíscar feito a partir dos genitais de um animal para excitar outro.

A cidade oferece uma dança tribal de fertilidade em versão moderna, um safári sexual, e muitos homens sentem-se pressionados a provar amiúde seu instinto caçador. O pênis, muitas vezes visto como uma arma, é também um fardo, a maldição masculina. Faz de alguns homens incansáveis libertinos, voyeurs, exibicionistas, estupradores. É o que os convoca para a guerra militar e os envia, em numerosos casos, para a morte prematura. Suas seduções insanas podem levar à discórdia matrimonial, ao divórcio, à separação dos filhos, à pensão. Seu desregramento em altos escalões provoca escândalos políticos e derruba governos. Sentindo-se infelizes, alguns homens decidem livrar-se deles.

O trecho foi extraído do livro "A Mulher do Próximo", de Gay Talese, publicado pela Companhia das Letras em 2002.

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Enquanto a imprensa brasileira rechaça a figura política de Luiz Inácio Lula da Silva e não cansa de caçar pêlo em ovo para comprometer a possível candidatura de sua protegida, Dilma Rousseff, o jornal 'El País', uma das maiores referências em coberturas internacionais do mundo, nomeou os dois políticos como uma das 100 maiores personalidades do ano.

José Luís Rodriguez Zapatero, presidente da Espanha, é quem atesta a liderança de Lula na América Latina, dizendo que "este é um homem minucioso e tenaz por quem tenho uma profunda admiração". Reconhece o peso de sua liderança na América Latina argumentando que Lula é um homem que se "converteu em uma referência irrecusável para a esquerda do continente sul-americano abaixo do Rio Grande do Sul". Não deixa de admirar o pernambucano sem diploma que veio de um país pobre e tece elogios para seu comprometimento com a pobreza da sociedade brasileira.

Além de Zapatero, Júlio Maria Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai, analisa que Lula é um político que transcende todas as discussões acerca da corrupção. E finaliza o texto com a seguinte frase: "Qualquer que seja o futuro, ele (Lula) já fez sua história".

Não é de se admirar que Lula seja ovacionado pela imprensa internacional ao mesmo tempo que é esculachado pelos patrícios. Afinal, aqui ele demonstra representar uma ameaça aos interesses dos conglomerados midiáticos, como a Globo que teve a triste atitude de editar o debate eleitoral em 1992 para favorecer Fernando Collor na disputa presidencial ou 'O Estado de S. Paulo', que não cansa de trazer editoriais questionando veementemente seu governo enquanto apoia, nas entrelinhas, os candidatos tucanos, tais quais José Serra e Aécio Neves (a Folha anda pelo mesmo caminho, apesar de não ser tão conservadora como os concorrentes 'Globo' e 'Estadão').

'El País' ainda nomeou, como as 100 maiores personalidades do ano de 2009, a candidata do PT Dilma Rousseff, com artigo de Marco Aurélio Garcia e a ex-ministra do meio ambiente Marina Silva, que migrou do PT para o PV, com artigo de Francho Barón, correspondente no Rio de Janeiro pelo jornal espanhol.

Claro sinal de que o país não está apenas conquistando os holofotes internacionais graças a seus recursos naturais e seu modo de conduzir a crise internacional, mas, sim, sinal de que o mundo todo está de olho nos brasileiros que fazem do Brasil um país melhor.

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