A chegada de "Avatar" nos cinemas gerou uma expectativa que, apesar de muitos considerarem fora do comum, não deixa de ser típica. Já adianto que ainda não assisti (mas ainda vou), mas já não espero muita coisa além de belos efeitos visuais e um roteiro à lá Marvel Comics. De fato, o que pesa na bigorna é a tecnologia incrível que o diretor James Cameron utilizou nos cenários e personagens. Isso é o que leva a geral pro cinema; de resto, o que vier é complemento.

O jornal "New York Times" publicou um artigo interessante sobre a necessidade imagética que os espectadores (principalmente os mais jovens) têm em relação aos filmes e seriados que assistem. O conteúdo ou um bom roteiro, por exemplo, ficam em segundo plano diante dos belos efeitos especiais que tornam uma cena espetacular aos olhos de quem assiste. É a chamada 'Era do DVD', que conquistou os aparelhos de televisão de forma tão abrupta que está moldando o comportamento geral dos verdadeiros ociosos da atualidade.

Tal comportamento impede que os jovens, por exemplo, apreciem antigos seriados que usavam os recursos tecnológicos da época para impressionar os espectadores. Uma clara evidência é o recente lançamento da saga inicial de "Star Wars", dirigida por George Lucas. Quem ainda não assistiu a primeira trilogia certamente deve ter gostado da recente.

Entretanto, o roteiro é tão atraente que qualquer espectador que gosta da série quer assistir todos os filmes, que tem continuidade com a primeira trilogia lançada nos anos 1970. Mas a série antiga ainda sofre relutância por parte dos novos fãs porque é incomparavelmente inferior em se tratando de recursos tecnológicos.

Como afirmou o crítico de artes do "New York Times" Neil Genzlinger "os garotos se sentem estúpidos" quando percebem falhas na produção de um efeito especial, por exemplo. É como se eles quisessem trazer para a realidade as fantasias da ficção para suprir uma frustração recorrente da tediosa e simplória 'vida real'. Se a fantasia consegue inescapar aos olhos nus, então ela é passível de ser compreendida como realidade.

Para ampliar os exemplos o jornalista Dave Itzkoff, do "New York Times", relembrou em seu artigo a antiga série F Troop, que dominou as telinhas americanas entre os anos de 1965 e 1967. Em uma comparação, mostra os efeitos utilizados para fazer a cena de uma fuga. Os cavaleiros que perseguem o personagem atiram flechas para tentar acertá-lo. Hoje em dia, fica evidente que já havia flechas por trás do chapéu do personagem para tentar criar o efeito do tiro.

Perceber tais falhas imagéticas acaba comprometendo a expectativa gerada, fazendo com que, consequentemente, o filme ou o seriado 'perca a graça'.

Justifica-se a repetida (por vezes bem acertada, por outras não) aposta dos diretores pelas séries mitológicas, como vampiros, monstros horrendos, heróis superpoderosos ou grandes titãs. Atrai multidões porque sempre englobam histórias que 'têm graça', já que escapam da dureza insana da realidade. "Crepúsculo", o milionário best-seller que conquistou de vez a nova geração, por mais que se enquadre nas tendências atuais, não deixa de ser o resultado de uma exatidão de fórmulas: é mitológico, tem carga de dramaticidade que condiz com o sentimentalismo adolescente e tem efeitos incríveis. Foi a essência para a criação de uma série da Warner que descaradamente bebeu da mesma fonte, o tal "The Vampire Diaries".

O que é fácil de observar é que inúmeros tabus são criados e reinventados para tentar cativar ainda mais a atenção dos espectadores. Além dos famigerados prêmios de bilheteria, congratulação de fãs-clubes e estatuetas preciosas, o establishment cria incontáveis listas paradigmáticas para fervilhar a produção cinematográfica hollywoodiana. Daí às vezes saem bons filmes, mas na mesma proporção de tampinhas premiadas em garrafas de refrigerante.

Com a crescente demanda de filmes deste gênero, torna-se cada vez mais eficaz a perpetuação dos arquétipos imagéticos no imaginário dos espectadores. É aí que entra o lucrativo negócio dos videogames e da indústria dos brinquedos, que pegam carona nos espetaculares filmes de ficção. A interação com os personagens de uma série, por exemplo, torna mais próxima a penetração em uma realidade inexistente, deixando os vislumbrados mais distanciados daquilo que é real.

Ou seja, ficção e realidade se misturam em uma batalha que sai vencedor aquele que for mais atraente - no caso, o abstrato se sobrepõe ao concreto. E isso se reflete na realidade. Afinal, é melhor viver uma realidade fantasiada ou buscar fantasias para moldar o real? Como diria o teórico Theodor Adorno, "como viver verdadeiramente em um mundo falso?"

De fato o refúgio dos efeitos se tornou a plena salvação de alguns roteiros pífios. O que vale é a tendência do momento: se algo dá certo, é melhor usufruí-lo até o desgaste, para depois encontrar uma outra tendência que supere o tédio. É como se fosse um tratamento terapêutico para calar o choro de criança: dá-se um chocolate para que ele pare de chorar, mais outro, outro e outro, até que ela enjoe e peça um novo sabor. E assim sucessivamente.

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Mais triste é saber que, além de sermos alvos das tendências, somos atraídos fortemente por elas. A "Era do DVD" não chegaria a este ponto se não tivéssemos fácil acesso a tudo o que gostaríamos com um simples clique de 'Download'. Na verdade, é errôneo criar diversos termos para tentar explicar a realidade que vivenciamos, quando já estamos nela desde que o homem inventou a roda. Criamos necessidades tecnológicas desde que nos entendemos por gente; o que muda é que já avançamos imensamente neste sentido, principalmente no século passado após a matança geral de duas guerras mundiais.

Por mais que defenda uma volta às origens e uma valorização maior aos esforços intelectuais da mente humana, não passo de um reles refém dos efeitos especiais e da fugacidade tecnológica. Não fosse isso, jamais escreveria um post em um blog, que é uma ferramenta oriunda das novas capacidades da tecnologia. Pelo jeito, como diria um amigo meu, "o esquema é ponderar".


Feliz Ano Novo à todos e boa 'ponderação tecnológica'.


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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A insana honestidade do pênis, por Gay Talese



Gay Talese, às vezes, não é jornalista. Segundo os conceitos que se aprende na universidade, o jornalismo é regido por fórmulas de escrita, no qual a pirâmide invertida é a essência de uma notícia estruturada pela hierarquia da informação. Vítima de si mesmo, o jornalismo não é para poucos; é para muitos. Porém, são poucos os que conseguem transcender seu estilo textual informativo para algo agradável e prazeroso de se ler, como um romance.

Lemos jornais porque queremos nos informar; raros são os casos em que a forma em que a história é narrada nos agrada. Quando acontece, só nos domingos - e olhe lá! Talvez isso justifique porque a maioria dos leitores de jornais leem apenas 10% de todo seu conteúdo. Para ler mais, só sendo jornalista mesmo.

Gay Talese, se dependesse de jornal para viver, escreveria só aos domingos. Não são as poucas palavras difíceis nem a estrutura complexa de suas reportagens e textos que agradam, mas sua forma de abordar cada assunto, sua perspicácia em investigar todos os ângulos das temáticas e situar a informação a ponto de parecer que o leitor estava presente na hora dos acontecimentos.

Tudo isso, é claro, de uma forma simples. Essa é uma proposta do 'new journalism' americano, do qual Gay Talese é decorrente. Quer comprovar sua maestria? Então, leia o perfil para a "Esquire" que Gay Talese fez em 1965 de Frank Sinatra, sem nem ao menos conseguir entrevistá-lo. A reportagem é considerada uma das maiores belezas do jornalismo e, sem dúvida, o melhor perfil já escrito sobre Sinatra.

Estou lendo um livro dele, "A Mulher do Próximo" (1980), que revisa o conservadorismo sexual antes dos anos 1950 nos Estados Unidos até chegar na permissividade dos dias atuais, principalmente com a sociedade libertária dos anos 1960 e com a era da AIDS. Só que, para contar essa transição, Gay Talese traz personagens que servem de espelho para cada época tratada. Conta a história de Hugh Hefner, que criou a Playboy, de jovens que se masturbavam com revistas pornográficas vendidas ilegalmente e relata a violenta repressão dos conservadores reacionários que queriam proibir a vulgaridade social, no fim do século XIX. Além disso, traz exemplos de casos sexuais nos anos 60 com histórias reais, apuradas de um jeito que só Gay Talese saberia expor.

Desnecessário argumentar que o livro é fascinante. E é por isso mesmo que me senti na obrigação de trazer um trecho de sua obra, talvez o trecho considerado mais polêmico. Gay Talese discorre sobre a subserviência e a fraqueza mental que o homem está submetido à seu pênis. Graças às necessidades fisiológicas e repulsas masturbatórias, o homem reduz sua mentalidade ao nada e dá lugar ao desejo incontrolável de satisfazer as vaidades manifestadas por seu pênis.

Para explicar melhor, peço licença ao escritor americano para publicar um pequeno trecho de sua obra:

O texto erótico muitas vezes leva à masturbação, e isso era motivo suficiente para tornar controverso o romance de (D. H.) Lawrence (autor de "O amante de lady Chatterley"). Mas havia mais: por meio da personagem do guarda-caça, ele explora a sensibilidade e o distanciamento psicológico que é comum o homem sentir em relação a seu órgão genital; de fato, o pênis parece ter vontade própria, um ego maior que seu tamanho e é frequentemente constrangedor por causa de suas necessidades, seus fascínios e sua natureza imprevisível. O homem sente, às vezes, que o pênis o controla, leva-o para o mau caminho, faz que implore favores à noite cujos nomes prefere esquecer na manhã seguinte. Seja insaciável ou inseguro, o pênis exige provas constantes de sua potência, introduzindo em sua vida complicações indesejadas e repetidas rejeições. Sensível, mas capaz de recuperação rápida, igualmente disponível dia e noite com um mínimo de persuasão, ele tem se desempenhado com decisão, embora nem sempre com habilidade, por uma eternidade de séculos, sempre procurando, sentindo, expandindo-se, explorando, penetrando, pulsando, murchando e querendo mais. Sem jamais esconder seu interesse lascivo, é o orgão mais honesto do homem.

É também um símbolo da imperfeição masculina. É desequilibrado, assimétrico, pendente, frequentemente feio. Mostrá-lo em público é "exposição indecente". É muito vulnerável, mesmo quando feito de pedra: os museus estão cheios de figuras hercúleas com pênis lascados, cortados ou completamente decepados. Os únicos que sobrevivem sem danos parecem ser aqueles desproporcionalmente pequenos, criados por artistas que talvez não quisessem intimidar os órgãos menores que o normal de seus patronos. Na arte religiosa, o pênis é muitas vezes representado como uma serpente, esmagada pelos pés da Virgem Maria; desde o século XI, os padres, aderindo ao voto de celibato, têm resistido a sua tentação cobiçosa. A masturbação sempre foi considerada pecaminosa pela Igreja, e há muito tempo recomenda-se um chuveiro frio para os paroquianos solteiros como uma maneira de afogar as primeiras ebulições da ascensão da paixão.

Apesar de a força moral da tradição judaico-cristã e da justiça ter procurado purificar o pênis e restringir sua semente à instituição santificada do matrimônio, ele não é por natureza um órgão monógamo. Desconhece códigos morais, foi projetado pela natureza para o esbanjamento, adora a variedade, e nada, exceto a castração, eliminará seu pendor para a prostituição, a fornicação, o adultério ou a pornografia.

A pornografia atrai especialmente o pênis dos homens que não têm meios para pagar prostitutas ou sustentar amantes, ou que são feios ou tímidos demais para conquistar mulheres, ou ainda que estão temporariamente isolados delas (em prisões e hospitais, por exemplo), ou que desejam continuar fiéis ao casamento em todos os aspectos, exceto quando se entregam a uma fantasia orgástica com uma revista, ou quando, durante a relação sexual matrimonial, imaginam que sua esposa é outra mulher. Isso se chama "superimposição". É a forma mais comum e privada de infidelidade no mundo e sua estimulação não depende da pornografia.

Todos os dias, o pênis é vítima de visões sexuais na rua, nas lojas, nos escritórios, nos outdoors e nos comerciais da televisão; é o olhar malicioso de uma modelo que aperta a pasta de dentes, os mamilos que se imprimem na blusa de seda da recepcionista da agência de viagem, o bando de nádegas jovens em jeans apertados que sobe pela escada rolante da loja, o perfume que emana do balcão de cosméticos: almíscar feito a partir dos genitais de um animal para excitar outro.

A cidade oferece uma dança tribal de fertilidade em versão moderna, um safári sexual, e muitos homens sentem-se pressionados a provar amiúde seu instinto caçador. O pênis, muitas vezes visto como uma arma, é também um fardo, a maldição masculina. Faz de alguns homens incansáveis libertinos, voyeurs, exibicionistas, estupradores. É o que os convoca para a guerra militar e os envia, em numerosos casos, para a morte prematura. Suas seduções insanas podem levar à discórdia matrimonial, ao divórcio, à separação dos filhos, à pensão. Seu desregramento em altos escalões provoca escândalos políticos e derruba governos. Sentindo-se infelizes, alguns homens decidem livrar-se deles.

O trecho foi extraído do livro "A Mulher do Próximo", de Gay Talese, publicado pela Companhia das Letras em 2002.

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Enquanto a imprensa brasileira rechaça a figura política de Luiz Inácio Lula da Silva e não cansa de caçar pêlo em ovo para comprometer a possível candidatura de sua protegida, Dilma Rousseff, o jornal 'El País', uma das maiores referências em coberturas internacionais do mundo, nomeou os dois políticos como uma das 100 maiores personalidades do ano.

José Luís Rodriguez Zapatero, presidente da Espanha, é quem atesta a liderança de Lula na América Latina, dizendo que "este é um homem minucioso e tenaz por quem tenho uma profunda admiração". Reconhece o peso de sua liderança na América Latina argumentando que Lula é um homem que se "converteu em uma referência irrecusável para a esquerda do continente sul-americano abaixo do Rio Grande do Sul". Não deixa de admirar o pernambucano sem diploma que veio de um país pobre e tece elogios para seu comprometimento com a pobreza da sociedade brasileira.

Além de Zapatero, Júlio Maria Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai, analisa que Lula é um político que transcende todas as discussões acerca da corrupção. E finaliza o texto com a seguinte frase: "Qualquer que seja o futuro, ele (Lula) já fez sua história".

Não é de se admirar que Lula seja ovacionado pela imprensa internacional ao mesmo tempo que é esculachado pelos patrícios. Afinal, aqui ele demonstra representar uma ameaça aos interesses dos conglomerados midiáticos, como a Globo que teve a triste atitude de editar o debate eleitoral em 1992 para favorecer Fernando Collor na disputa presidencial ou 'O Estado de S. Paulo', que não cansa de trazer editoriais questionando veementemente seu governo enquanto apoia, nas entrelinhas, os candidatos tucanos, tais quais José Serra e Aécio Neves (a Folha anda pelo mesmo caminho, apesar de não ser tão conservadora como os concorrentes 'Globo' e 'Estadão').

'El País' ainda nomeou, como as 100 maiores personalidades do ano de 2009, a candidata do PT Dilma Rousseff, com artigo de Marco Aurélio Garcia e a ex-ministra do meio ambiente Marina Silva, que migrou do PT para o PV, com artigo de Francho Barón, correspondente no Rio de Janeiro pelo jornal espanhol.

Claro sinal de que o país não está apenas conquistando os holofotes internacionais graças a seus recursos naturais e seu modo de conduzir a crise internacional, mas, sim, sinal de que o mundo todo está de olho nos brasileiros que fazem do Brasil um país melhor.

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Podemos não perceber, mas cada vez mais o Irã e a cultura do Oriente Médio se aproximam do Ocidente. A recente visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil reflete um pouco dessa realidade.

Paralelo a isso, todos os tipos de preconceitos e estereótipos são desferidos aos montes a essa região tão conflituosa, que detém os maiores poços de petróleo do globo. E quem diretamente sofre com esses ataques perniciosos motivados pela santa ignorância? O povo, é claro, que mora naquela região.

Marjane Satrapi não pode ser considerada uma representante 'in loco' do caos diário que assola o Oriente Médio - mais especificamente o Irã. Afinal, ela é descendente de um mandatário do império e teve uma família instruída e politizada o suficiente para ingressá-la em um liceu francês na intenção de garantir-lhe uma boa formação para abandonar, quando quisesse e se sentisse preparada, o terreno hostil que a pátria-mãe, o Irã, tinha se tornado.

Em "Persépolis", uma simplória e divertida HQ que conta um pouco da história de Satrapi no contexto da guerra Irã-Iraque patrocinada pelo armamento pesado dos EUA, a autora expõe o seu íntimo da maneira mais agradável possível ao leitor, para explicitar a influência deste 'causo' no cotidiano social do Irã. Ela retrata o fanatismo que tomou conta dos patrícios com a intensificação da guerra e como isso eclodiu na vida do cidadão comum - no caso, ela, Marjane Satrapi, e sua família.

De forma divertida, graças à leitura fácil e atraente, o leitor irá se identificar com a trajetória dos erros e acertos da pequena garota rebelde e corajosa até se tornar uma universitária com sede de saber, ricas experiências de vida e uma educação exemplar. Entretanto, como o fato histórico vivenciado pela jovem obrigou-a, ela devia prestar contas a um regime islâmico cada vez mais repressor, que impedia que as mulheres usassem maquiagem, cultivasse padrões ocidentais de beleza ou despertasse em público desejo aos homens.

A repressão foi intensificada com a queda do xá em 1979 e o levante do Irã, que levou milhões às ruas para protestar contra a opressão aos dissidentes políticos contrários à monarquia, que dominava o país na época.

Neste momento, os ativistas políticos acharam que no Irã surgiria uma república democrática ou socialista nos moldes teóricos de Karl Marx. Em pouco tempo, os cidadãos mais informados (como a família de Satrapi) perceberam que nada disso aconteceria - o que de fato se concretizou.

Os novos dirigentes se mostraram ainda mais conservadores que os monarquistas. Toda essa transição política foi motivada pela crescente subserviência do xá com os EUA, que estavam interessados no petróleo. Os islâmicos que tomaram o poder adotaram uma política protecionista com os americanos, que não toleraram e fizeram questão de fomentar a richa contra o vizinho Iraque promovendo uma guerra que matou muita gente inocente naquela região.

Diante do cenário catastrófico que o Irã sofria em meados dos anos 80, os pais de Satrapi acharam melhor mandá-la para a Áustria, para que ficasse a salvo e pudesse dar continuidade aos estudos. Chegando lá, deparou-se com uma cultura extremamente diferente da sua. Apesar de ter uma educação liberal e levemente ocidentalizada, a autora relata algumas de suas chocantes surpresas com o 'european way of life', como a liberdade sexual (ao contrário do conservadorismo de seu páis de origem) e o asco que lhe causava o pseudo-intelecto da juventude burguesa.

Depois de passar por maus bocados e uma rica experiencia de vida, volta para a terra natal com o pensamento mais estruturado, apesar da crise de identidade suscitada pelo choque cultural de quatro anos de vivência na Áustria.

O que mais instiga o leitor a folhear as páginas de "Persépiolis" é a possibilidade de adentrar em uma vida privada totalmente diferente vista a olhos ocidentais. Marjane Satrapi pode não representar o cidadão médio do Irã ou daquela região, mas não deixa de desvendar surpresas e de compartilhar emoções e experiências com o amigo leitor.

Pois, por mais que o Oriente Médio e o resto do mundo estejam distantes cultura, política e geograficamente, uma coisa nos une: a vivência. Essa é a carta na manga que Satrapi usa sabiamente para apresentar um pouco de sua realidade, que não deixa de ser um fragmento verossímil da situação política do Irã.

* Em 2007, a HQ foi adaptada para as telonas do cinema. Abaixo, segue o trailer de "Persépolis", com legendas em inglês:



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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Grandes Álbuns #4: Bob Marley - Survival




Difícil definir Bob Marley em um álbum só. O cara foi (é) o rei do reggae e da Jamaica, um ativista da paz universal, pai de doze filhos, um cantor de primeira e, obviamente, um grande revolucionário. Aliás, essa é a faceta mais evidente em um de seus últimos trabalhos de estúdio, "Survival". (Inclusive, 2009 foi o ano de seu 30º aniversário, mais especificamente no dia 2 de outubro. Portanto, este post serve como uma tardia comemoração desta pérola. E também , claro, porque integra um dos melhores trabalhos que já escutei...)

Bob Marley teve a ideia de conceber "Survival" pensando na unificação dos negros africanos para confrontarem a repressão política e segregadora do apartheid. Na verdade, o compositor pensou em nomear o álbum de "Black Survival" mas, para não sofrer censura total no continente por parte dos poucos brancos que mandavam por lá, optou apenas por "Survival".

O álbum é o primeiro de uma trilogia que revela, em minha humilde opinião, uma das fases mais áureas de Bob Marley. O próximo trabalho, "Uprising", foi lançado em 1980, ano da turnê de independência do Zimbabwe, e "Confrontation", seu álbum póstumo, foi lançado somente em 1983.

"Africa Unite", o primeiro single de "Survival", já é revolucionária logo por seu título. Para quem não sabe, o continente africano foi explorado pelos colonos justamente pelo conflito tribal entre os nativos. Os europeus alimentaram essa richa entre eles para poder dominar o território e explorar os recursos naturais com facilidade. Até hoje a maioria dos países africanos sofre com esse terrível 'causo' que tornou a África o continente mais pobre e segregado de todo o mundo. Quando Bob Marley canta "Africa Unite" ele clama por essa união, que carece de fortalecimento individual e coletivo: "Africa Unite / Because we're moving right out of Babylon / and we're going to our father's land" ("Africa unida / porque temos que sair da babilônia / e estamos indo para terra de nosso pai").

Marley é um ativista conscientizado e atento à realidade de seu tempo, que infelizmente se perpetua até os dias atuais. "So Much Trouble In The World" é apenas um prelúdio das desgraças que assolam o mundo. Não por coincidência, é a primeira faixa do álbum. Para ele, (sabiamente) só uma união muito grande pode evitar com que mais catástrofes aconteçam em esfera universal. Como aquela famosa frase: 'live together, die alone'.

So you think you've found the solution, [Então você acha que encontrou a solução]
But it's just another illusion! [Mas é apenas outra ilusão!]
So before you check out this tide, [Antes de checar esta maré]
Don't leave another cornerstone [Não deixe outra curva]
Standing there behind, eh-eh-eh-eh! [Vegetando lá atrás, eh-eh-eh-eh]
We've got to face the day; [Temos que enfrentar o dia]
Ooh-wee, come what may: [Venha o que vier]
We the street people talkin', [Nós, as pessoas da rua conversando]
Yeah, we the people strugglin'. [Nós, as pessoas lutando]
"One Drop", umas das músicas mais instigantes de Bob Marley, indica que a batalha e a união dos mais fracos é o caminho certo de Jah, porque, como ele mesmo canta em sua canção, 'we no want no devil philosophy' ('não queremos essa filosofia do capeta').



Mas, de todas as canções, os marleymaníacos (como eu) hão de concordar que "Zimbabwe" é a música-chave de "Survival". Ela foi composta para ser tocada no dia da independência do país-canção da Rodésia, colônia britânica comandada pela oligarquia branca no poder, e acabou se tornando um hino (mesmo que não seja oficializado) no Zimbábue, que se tornou independente em 1980. "Zimbabwe" não é apenas o claro exemplo da necessidade de enfrentar as agruras do sistema em um país que foi marcado pela tragédia separatista do apartheid, mas clama a luta, o esforço que deve vir do cidadão comum para lutar pelos seus direitos ('we gonna fight / fight for your rights').

Também não é só uma extensão de "Africa Unite" e o remodelamento de uma unidade pátrio-racial para tentar acabar com o preconceito contra os negros e africanos no globo, mas, sim, um verdadeiro ato de entrega às origens de Bob Marley à mãe África, uma contribuição histórica ao povo daquela região, ou, mais ainda, uma forma representativa do compositor em batalhar pelo lado que sempre esteve: ao lado dos jamaicanos, das origens africanas, da paz universal, do amor pelo outro. Essa é uma revolução da qual Bob Marley jamais reincidiu. Uma revolução, além de tudo, humanitária.



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A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, é mais que um bom livro. Ele é um extenso aprendizado na trajetória da vida. O autor pondera de forma excepcional a emoção contida na história de duas mulheres que vivenciaram a transição política do Afeganistão para uma república islâmica. Além disso, carrega o difícil fardo de apresentar o cenário daquele país de forma instigante, sem cometer o pecado fatal de deixar o leitor desinteressado pela linguagem que mescla um pouco de História e romance.

Laila e Mariam, as personagens principais da obra, são duas mulheres que vieram de origens diferentes, mas que passaram por provações similares, decorrentes do difícil momento que o Afeganistão passava por volta de 1978. Mariam, que era a mais velha, perdeu as esperanças logo quando jovem, quando se viu obrigada a casar com um homem que mal conhecia depois de perder a mãe de forma trágica. Tempos depois, nasceu Laila, que vinha de uma boa família e teve uma ótima educação, pois seu pai era professor universitário.

Só que o Afeganistão passaria por um triste período histórico. Com a Guerra Fria, os soviéticos invadiram o país para conquistar influência geopolítica e causaram um imenso caos. Muitos não concordavam com a passividade do governo da época, o que acabou suscitando em uma guerra civil muito violenta.

Cabul, a capital do país, estava sob o espectro da violência. Muitos que se alistaram (na obra, os irmãos de Laila, que ela nem chegou a conhecer, exemplificam o mal estar da guerra numa família) acabaram montando grupos de resistência para tomar o poder. Para combater o 'mal' do comunismo, eles se organizaram em prol da religião árabe, o islã, e tornaram o Estado, antes democrático, fundamentalista.

As mulheres não podiam sair sem a burca e nem andar desacompanhadas de seus maridos, senão seriam linchadas em praça pública. Todos deveriam fazer suas orações diárias e não podiam ficar perambulando à toa, senão também apanhariam. É nesse cenário que Laila e Mariam se conhecem e passam a compartilhar a sobrevivência diária sob o mesmo teto. Soma-se às dificuldades das protagonistas o fato de o marido delas, Rashid, ser um homem extremamente impaciente, arcaico, machista e violento.

Hosseini acerta na dosagem de dramaticidade, porque não apela para o sentimentalismo do leitor e nem deixa a história previsível. Ele apresenta as personagens de uma maneira que instiga bastante, sempre alternando o romance com o conflito do Afeganistão.

Lendo A Cidade do Sol, o leitor acaba aprendendo mais sobre um país pouco conhecido aos olhos ocidentais, entra em contato com a cultura local e com a triste condição das mulheres diante de um regime fundamentalista, além de se emocionar com a vivacidade das personagens, com os erros e acertos de Laila e Mariam, com os sonhos perdidos e a esperança reluzente que brotam de uma realidade injusta para mulheres como elas.

Altamente recomendado não só para as mulheres, que vão se identificar com cada ensejo das personagens, mas também para os homens, para valorizarem a importância do direito de liberdade e igualdade de suas companheiras. Mais que tudo isso, A Cidade do Sol é um livro para a vida, que reforça o talento e a habilidade de trabalhar o romance dramático de forma estimulante do escritor de O Caçador de Pipas.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Afeganistão - e os rumos do mundo - nas mãos de Obama


 
O problema de ser centrista é que as críticas vêm de todos os lados, não importa se tenha ou não fundamentos. Barack Obama está sentindo isso na pele com a Guerra do Afeganistão. Recentemente, o presidente americano aprovou o envio de mais 30.000 soldados, a pedido do general Stanley McChrystal, para auxiliar na difícil missão de vencer a guerra. 

Como se já não tivesse recebidos críticas demais dos esquerdistas e alguns membros do Partido Democrata por fomentar uma guerra, Obama agora comprou algumas birras com o Partido Republicano - que em sua maioria apoia a permanência dos soldados no Afeganistão para combater o Talibã - por estabelecer um prazo para a retirada das tropas. Se até julho de 2011 não houver nenhum avanço no diálogo com a facção, os soldados voltam para os EUA. Os Republicanos argumentam que estabelecer prazos é um indício de fracasso na estratégia de guerra, por fazer com que os soldados operem sob pressão. Pelo menos não foi essa a impressão passada pelo general Stanley McChrystal, que está comandando a operação. Segundo o jornal El País, o general se sente incentivado pelo prazo dado.

Capturar simpatizantes do Taleban e ir com tudo pra cima deles não é bem a tática de McChrystal. O general pretende cooptar árabes a lutarem do lado dos ocidentais para que a ordem seja estabelecida no Afeganistão. Difícil pensar em ordem com um exército estrangeiro em seu território. Ainda mais um exército que desconhece a língua do país em que está instalado. Portanto, as dificuldades para que os planos de Obama sejam colocados em prática são imensas. É uma batalha contra a diferença cultural dos soldados ocidentais em relação aos cidadãos afegãos; uma batalha contra a impunidade terrorista de ameaçar de morte os patrícios que delatarem o esquema do Talibã aos americanos; e, agora, uma batalha contra o tempo estipulado pelo presidente. Por um lado, esse prazo é bom porque agiliza o processo e dá uma esperança aos soldados que batalham nessa guerra; por outro, pode ser curto e dificultar no diálogo efetivo com os afegãos.

Provavelmente, Obama põe fé no diálogo parcimonioso para solucionar a triste situação a que o Afeganistão se encontra. Mas, como se vê, o cenário não ajuda muito. McChrystal vai ter que tomar atitudes bem pensadas para que a guerra não seja em vão.

O PESO DA GUERRA

A proposta de Obama em trazer um ambiente mais pacífico ao Afeganistão com certeza está relacionada à sua origem muçulmana e, talvez, ele aposte nisso para conquistar com êxito seus objetivos naquele país. Soma-se a isso a sua batalha pelo apoio do partido oposicionista (que é a favor da  guerra) para que seus projetos sejam aprovados com mais facilidade.

Por outro lado, o peso da responsabilidade de manter uma guerra  é muito grande. Muitos críticos até relacionam essa política de Obama com a do democrata Lyndon Johnson na Guerra do Vietnã, que foi derrotado pela retórica belicista de Richard Nixon, do Partido Republicano, nas eleições de 1968. Se Obama fracassar, o slogan da mudança vai pro ralo. É algo muito ousado e arriscado por quatro motivos:


1 - Se Obama não vencer essa guerra, o Partido Republicano vai cair matando em sua estratégia e vai fazer o possível para que os cidadãos americanos adotem a política do medo, tal qual fez Bush depois de 11 de Setembro. Não é de se admirar que essa cena se repita.

2 - Obama pode perder a confiança de seus eleitores e pode obter um índice de desaprovação imenso não só em casa, mas também em toda a comunidade internacional, que irá associar essa derrota à sua inexperiência política. Ele pode nunca mais se candidatar.

3 - A carga de preconceito com os negros com certeza pode se elevar. Aliás, Obama é o primeiro presidente americano negro da história e carrega consigo um legado muito grande. O peso de vir de uma raça que foi escravizada durante anos pelos eurocentristas e que, quando tem a oportunidade de estar no poder, também se vê passível a cometer erros, é muito grande. Adoraria não afirmar isso, mas sei que essa ira racial é algo que pode ruir, principalmente em um país como os Estados Unidos.

4 - Os muçulmanos, que já são ridicularizados e alvos de preconceito pelos ocidentais, estarão em uma barreira cada vez mais intransponível no diálogo com a comunidade internacional. O que vem depois disso pode ser perigoso. Algo como uma Guerra Fria entre culturas e raças, não mais potências hegemônicas.

Por mais que seja contra guerra, há motivos para confiar em Obama. Porque ele sabe que tudo isso está em jogo. Dar um prazo para o término dessa guerra, em minha opinião, foi a decisão mais sábia no momento. Pelo menos se os Estados Unidos simbolicamente perderem essa guerra, já estarão precavidos para retornar com a consciência limpa, sem cair no crasso erro de prolongar os efeitos danosos que já foram - e os que ainda vão ser - marcas dessa guerra que, nas palavras do presidente, aparenta ter um fim, esteja ele próximo ou não.

Agora, a questão da confiança em Obama vai pesar bastante.

 

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O Ibope Nielsen Online fez uma pesquisa e constatou que, atualmente, os brasileiros são os usuários que ficam mais tempo no Twitter, chegando a gastar 56 minutos por mês no serviço do microblog. Os americanos, que somam um total de quase 19 milhões de usuários (ante os 8,7 milhões de brasileiros), passam até 31 minutos por mês no Twitter.

Se a notícia é boa ou não, fica difícil saber. Mas o que se sabe é que o motivo para atrair tantos internautas em tão pouco tempo (um aumento de 58 vezes em apenas nove meses) a uma rede social está mais que óbvio: graças às celebridades, às fofocas que o microblog tem rendido assunto e, principalmente, o excessivo culto de personalidade que faz com que os famosos sejam motivo de reverência para os fãs e valiosas fontes de renda para a imprensa sensacionalista. Foi através desta ferramenta que Danilo Gentili fez uma declaração preconceituosa e Sasha provou que tem dificuldades com a língua portuguesa, só para citar alguns exemplos.

Os mais seguidos (@huckluciano, @manomenezes e @rafinhabastos), obviamente, justificam o gosto do brasileiro pelos assuntos que estão acerca das celebridades.

Entretanto, o Twitter pode ser uma ferramenta muito útil. Só depende de quem o internauta segue. Para quem gosta de se informar, por exemplo, basta seguir os principais jornais do mundo e profissionais da qual têm afinidade para montar seu próprio ambiente de notícias. A própria imprensa viu no Twitter uma ferramenta absolutamente vantajosa, porque encontra um ambiente em que pode entrar em contato com o leitor/espectador, informá-lo e angariar novos seguidores promovendo algum tipo de sorteio ou promoção.

O Irã, por exemplo, que teve uma suspeita de fraude nas eleições deste ano, serve como grande exemplo da importância da ferramenta e do poder da notícia em tempo real. Já que nem todos podiam ir às ruas para protestar, muitos escancararam ao mundo a onda de repressão que havia tomado conta do país e, com um aglomerado de 140 caracteres, sensibilizaram os internautas. Mais do que uma grande invenção, o Twitter está se transofrmando em uma verdadeira tendência.

Biz Stone, um dos criadores do Twitter, quer lançar um serviço pago para as empresas terem um relacionamento mais frutífero com seus seguidores. As celebridades, motivo principal dos brasileiros aderirem ao microblog, com certeza vão se jogar nessa onda para ganhar um 'extra'.

Aliás, o brasileiro alimenta isso mesmo.

Pelo menos é o que dá a entender.


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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Grandes Álbuns #3: The Who - Who's Next


The Who é uma das maiores bandas de todos os tempos. Indiscutivelmente. Foram os pioneiros na atitude punk com a música "My Generation" (1965), lançaram o primeiro álbum conceitual - que mais tarde chegou a ser nomeado de ópera rock - e levaram muitos fãs ao delírio com suas apresentações incendiárias, chegando a ser citado como uma das melhores performances já vistas.

Mas o ápice do grupo só chegaria em 1971, com o lançamento de "Who's Next". Depois do sucesso de "Tommy", a primeira ópera rock lançada, Pete Townshend, guitarrista e compositor de pelo menos 90% de todas as canções do grupo, não sabia o que usar para gravar. Havia sobrado alguns takes das sessões de "Tommy", umas músicas espalhadas. E só. Cogitou fazer um trabalho mais teatral, mais performático, que precocemente chegou a intitular de "Lifehouse". Decepcionado, em uma beira de ataque de nervos, viu que só lhe restava tocar com o que tinha sobrado, pois já estava exausto de compor.

Mal sabia Townshend que só haviam pérolas guardadas. Juntou o material com o que tinha planejado lançar com "Lifehouse" e foi pro estúdio. Neste álbum, "Who's Next", é importante citar a presença dos sintetizadores nas canções, algo até então novo para a banda. Pete Townshend chegou a dizer certa vez: "Gosto de sintetizadores porque eles trazem um poder adicional às minhas mãos". É o que se vê na primeira faixa do álbum, "Baba O'Riley", que inicia como um solo de piano e depois tem o ritmo crescentemete acelerado, até que uma espécie de sino medieval corta o som e os vocais de Roger Daltrey entram vigorosamente cantando "Out here in the fields..."

Com propriedade, posso afirmar que o álbum, do começo ao fim, é repleto de músicas boas para todos os momentos. Entretanto, sua potência se multiplica quando se escuta sozinho mesmo. Roger Daltrey mantém a maestria vocal em todas as faixas, Townshend consegue captar a emoção de cada canção tocada, seja no violão, guitarra distorcida ou sintetizador. Sem mencionar a profundidade do baixo de John Entwhistle, um dos maiores baixistas de rock que a música já teve, e a esquizofrenia nas bateras de Keith Moon, que parece moderar a insanidade das baquetas sem deixar de lado suas marcas.

Quando foi lançado, em 1971, "Who's Next" saiu nas lojas com nove canções: "Baba O'Riley", "Bargain" (uma verdadeira ode ao amor), "Love Ain't For Keeping", "My Wife" (escrita pelo baixista Entwhistle), "Song Is Over" (uma vangloriosa balada para os tímpanos),"Getting In Tune" (ponto para a capacidade vocal de Daltrey, mesmo que seja para exaltar a crise existencial. Essa faixa é um fragmento do que iria para "Lifehouse"), "Going Mobile", "Behind Blue Eyes" e "Won't Get Fooled Again" (com um solo de guitarra estarrecedor de Townshend). Com exceção da quarta faixa, todas foram escritas por Pete Townshend.

Remasterizado em CD, a obra ganhou mais sete faixas adicionais, incluindo um take alternativo para "Behind Blue Eyes".

Desnecessário dizer que as faixas adicionais só confirmam a preciosidade de "Who's Next". "Pure and Easy" é o que seria a continuação da canção "The Song Is Over", que também fazia parte do projeto frustrado "Lifehouse". "Baby Don't You Do It" traz mais agressividade ao trabalho, remontando aos áureos tempos de "My Generation". Nesta faixa, as baquetas de Moon brilham em sincronia com os vocais de Daltrey.

"Naked Eye", para mim uma das melhores canções que o The Who já tocou enquanto banda, parece ser uma viagem alucinante, mas na verdade é uma expansão das ideias de um casal que aparentemente está em crise conjugal : "It all looks fine / to the naked eye / but it don't really happen that way at all" ["Parece tudo normal / aos olhos nus / mas não aconteceu exatamente dessa maneira].

O virtuosismo de cada integrante é explícito em "Water"; e, para fechar, "Too Much Of Aything" e "I Don't Even Know Myself"encerram com chave de ouro a maestria do álbum. E aí, fica a pergunta: se, por algum acaso, o lançamento de "Lifehouse" fosse adiante, será que ele seria superior ao ótimo resultado de "Who's Next"? Já arrisco logo: acho que não chegaria nem aos pés!

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Lula aposta na moderação nas relações com o Irã


Caso o Brasil realmente queira assumir a hercúlea tarefa de mediador no Oriente Médio, tem que manter os pés no chão e saber ouvir os dois lados. Pelo menos, Lula foi suficientemente moderado para não dar importância às polêmicas declarações do presidente Mahmoud Ahmadinejad em sua visita ao Brasil ontem, e não se sujeitar à política restritiva da comunidade internacional.

Ainda impera o medo mundial característico pós-Guerra Fria de que o presidente do Irã tome posse da bomba atômica com seu programa de enriquecimento do urânio e, do nada, queira atacar os inimigos da região. Israel é quem mais dissemina esse temor, clamando à Obama e ao mundo sanções para que esse programa seja interrompido. Importante citar que a nação judaica é a maior potência da região, por ter apoio bélico dos países mais ricos do globo.

Ahmadinejad insulta a comunidade judaica por ter declarado que o Holocausto não existiu e que não se importaria se Israel fosse varrido do mapa. Isso porque Israel foi um estado mal planejado e construído na base do imperialismo em 1948, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Criado para abrigar os judeus que resistiram ao massacre de Hitler, teve apoio financeiro dos EUA e da Europa como forma de agradecimento à importante contribuição intelectual dos judeus em diversos campos acadêmicos.

Só que os judeus não queriam uma região qualquer. Queriam um local bíblico, sagrado, como a Jerusalém Antiga. Aliás, há séculos que os judeus pretendiam ocupar esse lugar - justamente na Palestina, terreno árabe, palco de confronto entre as duas religiões. Tudo por conta de dois períodos históricos:

1) O massacre dos cristãos contra judeus e árabes no período das Cruzadas. Os judeus não ficaram tão enfurecidos quanto os árabes, que acabaram interpretando essa reação como uma condescendência judaica. Aliás, por volta do século XI, os cristãos invadiram território palestino, que era ocupado pelos árabes, que foram aniquilados em grande maioria;

2) Com o fim do Império Otomano, que durou do século XIII ao início do século XX, no período da Primeira Guerra Mundial, os árabes acabaram perdendo a hegemonia da área que vai do sudeste europeu ao chifre da África. Com a queda de Hitler, os egípcios e sauditas tentaram novamente estabelecer uma unidade árabe que lhes desse um poder semelhante ao de outrora. Enalteceram os preceitos do islã para controlar a região e se uniam do jeito que podiam para conquistar novamente o império. Até que... buemba! Israel ocupa a Palestina.

O presidente iraniano, apesar da mudança dos rumos históricos, reflete hoje os interesses soberbos dos árabes em predominar a região, que sempre foi estratégica graças à riqueza dos recursos naturais e da posição geopolítica no globo. Só que Ahmadinejad é apenas um mero mensageiro de seu país. A comunidade internacional o repudia como pode por seus argumentos políticos que ferem a ordem mundial, mas ele é apenas uma figura moldada pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Foi o aiatolá quem apoiou a ascensão de Ahmadinejad no poder e, provavelmente, deve ter patrocinado a fraude nas eleições em junho deste ano. Ele controla a política, o Judiciário, a liberdade de imprensa no país e a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Apoia os movimentos extremistas como o Hezbollah (Líbano) e o Hamas, que preocupa as autoridades israelenses na Faixa de Gaza. Em seu país, Khamenei não tolera a manifestação de grupos que em sua avaliação são considerados insurgentes (como gays, lésbicas, travestis, ativistas políticos e contrários ao governo).

De fato, o aiatolá, em aliança com os árabes egípcios e sauditas, promove como pode o conflito na região para que o extremismo islâmico se torne uma força unificada e tenha poder suficiente para comandar o Oriente Médio.

Não é de hoje que o Irã preocupa a comunidade internacional. Desde a Revolução Islâmica, promovida em 1979 pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o Irã perdeu o apoio geopolítico dos Estados Unidos para aderir a uma república teocrática, com o apoio dos xiitas que constituem a maioria de seu povo. Acabava o longo período histórico em que o Irã era regido por uma monarquia, que remonta ao século VI a.C., na época de Ciro. Quando assumiu, Khomeini argumentou que seu país estava se ocidentalizando demais e atropelando a tradição religiosa do islã.

Tal reviravolta no Oriente Médio fez com que os EUA mudassem de posição e apoiassem o regime do ditador iraquiano (e sunista) Saddam Hussein. Aproveitando que Irã e Iraque estavam em conflito, em 1980 patrocinou a guerra entre os países, que culminou com a morte de cerca de 30 mil soldados iranianos. Os EUA não tinham esquecido o episódio em que mais de 50 americanos foram feitos reféns em sua Embaixada em Teerã. É nessa época que se inicia a geopolítica do medo e da soberania americana sob o comando do republicano Ronald Reagan, que facilmente derrotou Jimmy Carter nas eleições graças ao seu tom belicista.

Nas relações internacionais, Lula vai ter que analisar bem todos os ângulos possíveis da história. O que realmente está em jogo, sem sombra de dúvida, é o interesse em desfrutar dos recursos naturais do Oriente Médio. O presidente, esperto como é, quer firmar uma parceria estratégica nas relações comerciais para exportar mais alimentos ao Irã em troca de mais petróleo.

Talvez essa história toda de mediação seja um simples alarde, graças à fama conciliadora de Lula. Pelo menos ele fez sua lição de anfitrião sem irritar nenhum dos lados dos quais joga: defendeu a criação de dois estados como solução para o impasse de Israel e Palestina e, ao mesmo tempo, defendeu o direito do Irã de prosseguir com as pesquisas em urânio - que não quer dizer que Lula seja a favor de que o país tenha posse da bomba atômica.

Pelo jeito, para Lula e para os interesses comerciais do Brasil, a visita de Ahmadinejad foi boa. É importante manter esse papel conciliador. Mas, não se sabe o que pode vir daqui pra frente. A imprensa torce para que o presidente iraniano faça alguma cagada para apontar o dedo acusatório à Lula. Todavia, a política é um jogo contínuo. Só o tempo vai provar se a parceria brasileiro-iraniana é um pacto com Judas.

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