segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

São Paulo, essa terra do tão distante


Em minhas andanças pelo Brasil adentro, cheguei a conhecer muitas pessoas que tinham interesse em pelo menos conhecer ou passar uns bons dias em São Paulo. Meus parentes nordestinos que vieram da Zona da Mata de Pernambuco para tentar ganhar a vida na capital paulistana gostam de trazer outros conterrâneos para trabalhar por essas bandas. Segundo eles, aqui é a 'terra do dinheiro'.

Ao mesmo tempo que vêm pra cá, eles se sentem reclusos diante da grandeza desta cidade. Quando moravam no interior do Nordeste, se sentiam livres para se deslocarem para onde quer que fossem: podia ser a pé, de bicicleta, nos carros-de-boi, motocicletas... de algum jeito chegavam a seus destinos.

Rogério - nome fictício para se referir a um primo meu que mora em Sampa - mora na região de Parelheiros (Zona Sul) e trabalha seis dias por semana em uma metalúrgica. Trabalha um dia no final de semana para compensar com hora extra o pouco salário que ganha. Já vive por aqui há mais de quatro anos. Certa vez, quando dei uma passada em sua casa, mencionei que ia dar uma volta na Avenida Paulista para encontrar uns amigos e ir para a Rua Augusta. Tímido, ele comentou que devia ser muito bonita a paisagem de lá. Sem hesitar, chamei ele para vir comigo e ele apressou-se em colocar a melhor roupa que tinha.

Ele ficou deslumbrado com as pessoas que circulavam no local, com os prédios de arquitetura moderna e todo o clima que envolve a Av. Paulista. De tanta informação, ele não conseguia descrever o que sentia passeando por aquelas calçadas.

Entrando nos bares, lanchonetes e regiões comerciais de lá, ele percebeu que a maioria dos trabalhadores ainda preservava um sotaque nordestino. Expliquei que são poucos os paulistanos de raiz que existem. Geralmente, aqueles que o são, fazem o que podem para viajar no final de semana porque não aguentam o trânsito caótico ou o clima instável. É como dizia o Caetano Veloso na letra de "Sampa": aqui é a terra dos "novos baianos" e eles "podem te curtir numa boa".

Rogério me disse que muitos colegas de trabalho não sabem informar onde chegar em determinados locais. "Como pode uma pessoa morar em uma cidade e não saber dar uma informação?" Respondi que é pelo fato da cidade ser grande demais, uma das maiores do mundo. "Mas, mesmo assim, a gente vê que às vezes um cara sabe dar a informação mas não dá por preguiça de falar, pela pressa, sei lá". É a tal hostilidade típica do cidadão apressado de São Paulo.

De qualquer forma, eu mesmo não conheço muitos lugares desta cidade. Para quem não tem como se deslocar com um transporte particular, tudo é muito distante. De fato, a deficiência do transporte coletivo é um empecilho para desfrutar de cada espaço que São Paulo oferece. Rogério tem a oportunidade de conhecer muitas coisas, mas fica retraído porque sabe que as pessoas não são de confiança e sabe que o ônibus pode deixá-lo na mão. Ainda tem que andar de mãos dadas com algum ser citadino que tenha paciência de apresentar a cidade. E olha que ele mora aqui há quatro anos!

São Paulo, muito além de ser a terra das oportunidades, é uma terra onde só quem tem dinheiro pode aproveitar. Como se já não bastasse a adaptação a um ambiente de estresse e correria, Rogério ainda tem o desafio de se enquadrar nos parâmetros sociais desta cidade para encontrar algum tipo de diversão. Por mais que reclame do preço do feijão, da cerveja e da passagem de ônibus, faz o que pode para não passar os dias de folga enfurnado assistindo Faustão. E, para isso, não adianta: tem que coçar o bolso e ter coragem para enfrentar pelo menos uma hora de transporte para chegar aonde deseja.

* É com atraso, mas pode considerar este post meu 'presente' pelo aniversário de 456 anos de São Paulo.

** Sei que letra é de Caetano, mas prefiro escutá-la na voz de Gilberto Gil. No vídeo, a música é cantada na gravação de seu álbum ao vivo "Unplugged", de 1994:

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Muitos relembram os anos 80 como uma década de muita produtividade artística, principalmente no âmbito do rock; foi uma época marcante, porque o metal entrava em cena e impressionava os ouvintes com canções que enfatizavam a diversão e o hedonismo.


O fato é que essa foi a década em que o rock mais decaiu. Talvez a morte de John Lennon e a ressaca pós-60 tenha influenciado bastante para que o som se tornasse mais diluído e as letras, decadentes. O que salvou a música nesse período, sem sombra de dúvidas, foi a invenção do hip hop. Entretanto, de tão diverso que era, o hip hop era, ao mesmo tempo, um movimento de resistência das raízes negras do soul e do funk e uma crítica voraz ao establishment, dando voz às minorias periféricas e contrariando o conservadorismo das convenções sociais.


Public Enemy foi quem melhor incorporou os elementos de um hip hop sem papas na língua e, ao mesmo tempo, divertido. Movidos pelo sentimento da revolta, trouxeram em suas letras o peso da crítica política com bases de música negra, para enfatizar a causa anti-preconceito que aderiram explicitamente. 


A personificação do MC, que já se mostrava presente com as músicas de Run DMC e as experimentações musicais de Afrika Bambaataa, teria um peso maior com a bombástica atitude de Chuck D e o divertido Flavor Flav nos vocais, Professor Griff - em algumas vezes no vocal e na maioria delas na bateria - e o DJ Terminator X, que mostrou o poder das pick-ups no ritmo, improvisando 'scratches' com virtuosismo em cima de bases que vão de James Brown à Anthrax.


"It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" é o segundo álbum do grupo, lançado em 1988 pela Def Jam Records. De fato ele é uma versão melhorada da aparição meteórica do P.E. em seu primeiro álbum "Yo! Bum Rush The Show", de 1986. 


Quando formou o grupo em 1982, Chuck D pegou a expressão "Public Enemy number one" utilizada em uma música intimista de James Brown. Sua preocupação com o sistema e a percepção de que ele era o culpado pela exclusão dos negros e mais pobres foi fator decisivo para que ele tomasse a frente dessa guerra e disparasse versos flamejantes, que atacam sem dó seus mantenedores, desde quando era um jovem MC nas rádios de Long Island, Nova York. "Don't Believe The Hype" traz a síntese de seu papel como músico. "About the gun... / I wasn't licensed to have one / The minute they see me, fear me / I'm the epitome - a public enemy" ["Sobre as armas... / Não tenho licença para obter alguma / No minuto que me veem, estremecem / Sou o resumo da ópera - um inimigo público"].


Apesar de ter uma causa social enquanto música, o P.E. não se prendeu a regionalismos ou adquiriu outros preconceitos ao defender os pobres e negros em suas canções. Em "Bring The Noise", além de tomarem os holofotes, estampam o som para o mundo convidando artistas renomados a escutarem o que tem pra dizer: "Beat is for Sonny Bono, beat is for Yoko Ono" ["A batida é para Sonny Bono, a batida é para Yoko Ono"]. 


Para provar o sincretismo a que estavam dispostos em aderir em suas canções, em "She Watches Channel Zero?!?", eles usam o sampler de um riff de rock pesado, "Angel Of Death", do Slayer, aproximando o peso das guitarras do rock com o peso das letras de rap.


Flavor Flav, que nas palavras de um dos fundadores do Beastie Boys, Adam Yauch, traz uma "aleatoridade selvagem" ao grupo junto com Chuck D, se apresenta como uma lâmpada fria, um complemento necessário para que as vozes do Public Enemy ecoem para todos os lados na faixa "Cold Lampin' With Flavor". Ainda nas apresentações, "Terminator X To The Edge Of Panic" anuncia a maestria do DJ numa base pesada de funk.


Seguindo uma linha cronológica de crítica, como se fosse um material bem elaborado nos moldes de uma tese argumentativa, "It Takes A Nation..." traz pesos pesados como "Louder Than A Bomb", na qual Chuck D assume um papel de delator das mentiras que a mídia e a política sustentam para diminuir a participação dos menos abastados nas decisões da sociedade. Sabendo que nem todos têm a atitude de confrontar os poderosos, Carlton Douglas Ridenhour explica a origem de seu pseudônimo: "Because D is for Dangerous".


Funk acelerado até o talo, "Caught, Can I Get A Witness?!?" é temperada com os scratches de Terminator X para relatar a dificuldade dos sentenciados à prisão em defender suas posições - afinal, eles são considerados mazelas da sociedade e não interferem no sistema macrofinanceiro. Quanto mais 'delinquentes' atrás das grades, melhor. E, quando se menciona 'delinquentes', extirpa-se o direito de defesa. Sem testemunhas, Chuck D conta as condições subhumanas do cárcere, onde "a bagagem vale mais que ouro".


Look at how I'm livin' now, lower than low [Veja como vivo agora, pior que os piores]
What a sucker know [O que um otário sabe]
I found this mineral that I call a beat [Achei esta fonte que chamo de batida]
I paid zero [Não paguei nada]
I packed my load 'cause it's better than gold [Embalei minha carga porque é mais valiosa que ouro]
People don't ask the price, but its sold [As pessoas não perguntam o preço, mas é vendido]
They say that I sample, but they should [Dizem que sou amostrado, mas eles deveriam]
Sample this my bit bull [Mostrar minha pequena oferta]


Falando em sistema prisioneiro, "Black Steel in the Hour of Chaos", certamente uma das melhores composições do grupo, relata o momento de fuga de encarcerados que representam tudo aquilo de mau que a sociedade prefere esconder. Critica o sistema de prisão e o consequente aumento de preconceito racial, pois a maioria dos presidiários é negra. Ironizando o 'negro' como pejorativo, Chuck D usa o termo "Black Steel" para se referir às armas dos carcereiros. Numa fábula periférica, narra a fuga dos prisioneiros, enquanto os agentes federais vacilam. Ele conta que a intenção da fuga é a volta para casa, e não a volta das práticas contrárias à lei. 




Em "Black Steel in the Hour of Chaos", P.E. usa uma base da música "Hyperbolicsyllabicseequedalymystic", do soulman Isaac Hayes. De forma abrupta, já inicia uma crítica ferrenha ao governo: "I got a letter from the government, the other day / I opened and read it, it said they were suckers" ["Recebi uma carta do governo, outro dia / Abri e li, dizia que somos trouxas"].


"Rebel Without a Pause", talvez a mais conhecida do álbum, é uma alusão ao filme consagrado de James Dean ("Rebel Without a Cause") e uma mescla de bases, scratches e indignações sociais, políticas e musicais. Com toda a maestria da equipe do The Bomb Squad, incluíram bases de "Get Up Offa That Thing" e "Funky Drummer", do reverenciado papa do funk James Brown. 


De forma irreverente e politizada, Public Enemy eternizou o hip hop com "It Takes a Nation..." e mostrou as diretrizes da crítica social para os grupos posteriores, conquistando a congratulada 48ª posição dos maiores álbuns de todos os tempos pela Rolling Stone. Sem nenhum preconceito (apesar da árdua batalha contra ele) e sempre abertos às experimentações, o grupo redefiniu a música negra e trouxe novas possibilidades ao gênero, sem abandonar as raízes musicais. O legado? Pode colocar na listinha aí Racionais, Snoopy Dogg, Beastie Boys, Dr. DRE, R.Z.O., Wu-Tang Clan e muitos, mas muitos outros mesmo. 





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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Imigrantes chineses em São Paulo #3



Viver longe do país de origem é sempre um desafio, principalmente quando se emigra para um local de cultura tão diferenciada. Brasil e China não compartilham os mesmos valores, crenças e costumes, mas, mais do que nunca, estão conectados.

Há muito tempo se fala de imigração chinesa no Brasil, mas a integração desta comunidade ainda é um dilema. Em São Paulo, quando se comenta de chinês, geralmente se associa à sua presença nos comércios da Rua 25 de Março, que acabou se tornando a marca registrada de trabalho deste imigrante.

Durante o processo de apuração da reportagem, tornava-se cada vez mais difícil entrar em contato com os chineses, conversar abertamente sobre assuntos corriqueiros e deixar explícito a proposta do trabalho. Por conta da abordagem da imprensa paulistana e da fiscalização policial dos comércios da região, estes imigrantes demonstram desconfiança e retração com qualquer brasileiro desconhecido que queira puxar assunto. Sob tais circunstâncias, o legado confucionista, que preza pela confiança na família, se reforça em cada cubículo chinês que forma o microcosmo da região.

Através do laço com a tradição do país de origem, os chineses imigrantes acabam se infiltrando na área do comércio no Brasil, contando com a ajuda de lojistas conterrâneos que já estão no país há mais tempo. Hoje, já somam cerca de 20 mil lojistas chineses, segundo a Associação de Empresários Chineses no Brasil.

Outro fator de complicação para os chineses é a língua, o que justifica a contratação de funcionários brasileiros para auxiliar no comércio – ou latinos, como paraguaios e bolivianos, que estão firmando presença na área. Somadas à distinção cultural e a diferenciação de costumes, a língua contribui para o fechamento da comunidade chinesa no Brasil, que vê no comércio uma possibilidade – a porta de entrada para o início de uma nova vida.

Com a abertura econômica em 1978 e a adesão à Organização Mundial do Comércio em 2001, a China vive áureos momentos de crescimento do PIB, se tornando um país cada vez mais importante nas decisões mundiais. E isso reflete no modo de viver chinês. Lá, o hábito de consumir, antes uma prática condenável pelos ensinamentos de Confúcio, acabou se tornando o novo slogan do Partido Comunista chinês na atualidade. Aqui, o hábito de poupança ainda é uma das características principais da comunidade chinesa, que se previne para as possíveis dificuldades que possam surgir. A maioria dos chineses usa o dinheiro guardado para investir na educação dos filhos, para que eles possam migrar para outras áreas profissionais.

Apesar de muitas vezes trabalharem com os pais, os jovens são a aposta dos chineses para um novo cenário no Brasil. Eles se esforçam para ingressar nas melhores universidades do país e garantir um bom cargo profissional no futuro para sustentar os pais com tranquilidade.

Em contrapartida, os chineses se veem presos a se manterem no comércio, uma vez que eles não param de chegar aos montes para tentar uma nova vida no Brasil.

Portanto, a permanência dos chineses aqui é repleta de ambiguidades. Poupam dinheiro, mas são vistos em carrões nas proximidades do trabalho, enquanto o consumo se torna a aposta do governo na China; moram no Brasil, mas conversam em mandarim o tempo inteiro com outros lojistas chineses; falam bem do país de origem, mas não veem outra possibilidade de vida fora da nova terra.

São essas curiosidades e esse jeito diferente de levar a vida que tornam os chineses personagens curiosos aos olhos brasileiros. Retratá-los como se deveria, apontando todas as reais diferenças entre brasileiros e chineses e aplicar no cotidiano deles a vastíssima cultura da qual estão inseridos, suscitaria em um trabalho muito mais extenso e analítico, que não caberia no conteúdo de uma postagem de blog qualquer.

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Que os Racionais foram um divisor de águas no hip hop nacional, disso não há dúvidas. Eles bateram de frente contra as impunidades do sistema, denunciaram a negligência da sociedade com os moradores de periferia e traçaram um retrato do país e da capital paulistana longe dos centros urbanos com grande afinco, com a voracidade de quem vivencia na pele as destrezas de uma realidade excludente.

Escutar Racionais é ouvir o relato de quem não tem medo da verdade, de quem enfrenta com punhos fechados o vírus social.

Apesar de toda essa batalha de Mano Brown, Edy Rock, KL Jay e Ice Blue, eles continuam vulneráveis ao preconceito. Parece um ímã que atrai cada vez mais. Ao sair nas ruas, é fácil ouvir pessoas taxando-os de preconceituosos contra os brancos (?!?), vendidos ao mercado, ingratos com a periferia por terem saído dela...

Na verdade, os Racionais tiveram um divisor de águas mesmo em sua carreira artística. E o principal responsável por isso foi o álbum "Sobrevivendo no Inferno", lançado em 1997. Foi nesse trabalho que o sucesso estrondou, que os Racionais atingiram níveis nucleares de expressão. Do playboy nadando em grana ao miserável que enfrenta a vida nas ruas para comer um pão em casa, os Racionais foram ouvidos por todas as classes, por todos os elementos que compõem a escala da sociedade.

Um fator que contribuiu fortemente para que isso acontecesse foi a incorporação do videoclipe "Diário de um Detento" na programação da MTV. Ali Mano Brown mostrou a todo o Brasil a realidade dos presídios como se estivesse na pele de um presidiário, relatando as angústias ("Mato o tempo pra ele não me matar") e o pessimismo que toma conta da vida de quem vive atrás das grades ("Minha vida não tem tanto valor / quanto seu celular, seu computador").

"Sobrevivendo no Inferno" mostra toda a maturidade que os Racionais tiveram diante de seu último trabalho, "Raio X Brasil", lançado em 1993. Mesmo com o avanço de "Fim de Semana no Parque", que mirava os olhos para as crianças carentes e pode ser considerada uma grande influência para os jovens favelados; ou "Homem na Estrada", que parte para um relato em primeira pessoa, pontapé inicial das melhores letras que Mano Brown já escreveu, o álbum evoluía da denúncia de um sistema falho para uma jorrada de acontecimentos drásticos que abalam o ambiente periférico. A partir daqui, Racionais trocou o grosso modo de escancarar de forma revoltada a realidade das ruas para demonstrar com precisão o pensamento do jovem que mora na periferia e partilha da ira que o sistema causa por deixar de lado essa verdade que está enraizada nos confins do país.

E é aí que a música dos Racionais provoca um efeito mais profícuo musicalmente. A mensagem torna-se mais eficiente, o playboy percebe como a realidade é dura e o favelado traça um paralelo de como a questão social o incomoda. Por isso mesmo o Racionais é ambíguo. Porque ele deixou de interpretar a sua forma o conceito de exclusão e passou a incorporá-la justamente para provocar interpretações. Ou mesmo equívocos.

Os melhores resultados dessa incorporação estão em "Sobrevivendo no Inferno". "Eu Tô Ouvindo Alguém me Chamar" talvez seja o maior exemplo disso. KL Jay cria um clima sinistro pra música, tirando a base de "Charisma", um R&B visceral de Tom Browne. E Mano Brown narra uma história como se estivesse sentado numa mesa de bar, rememorando as intempéries de quem ingressa no mundo do crime. É uma narrativa envolvente que foge das convenções musicais e que provoca a atenção do ouvinte.

Aliás, neste álbum KL Jay aplica sua ciência musical encaixando os vocais de Brown, Edy Rock e Ice Blue em bases de soul e R&B que realçam o tempero de infortúnios do melhor do rap brasileiro. Ouvindo de Curtis Mayfied a Public Enemy, passando por Isley Brothers, War e Isaac Hayes, a essência é black e o conteúdo é black. Só não o é o público-alvo, que acabou se tornando todas as raças e classes sociais que compõem o Brasil. Talvez fosse esse mesmo o objetivo.

Muitas músicas desse álbum se tornaram clássicas. A introdução polêmica de "Capítulo 4, Versículo 3" ("60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial") mostra que, mesmo 100 anos depois da abolição da escravatura, os negros ainda estão distantes de conquistarem os melhores cargos. E é esse fato que suscita numa violência generalizada que dá margem para mais preconceito. Aliás, quem está nas sarjetas da sociedade é o preto, geralmente pobre e favelado por falta de oportunidade. O preto que lidera os índices de violência no Brasil. Por quê? Porque tem os piores cargos, a pior vida, os piores xingamentos, as piores exclusões.

As ramificações da pobreza e da miséria se estendem: de moleque drogado que é obrigado a sobreviver nas ruas ("Mágico de Oz") ao príncipe da favela que esbanja simpatia com suas conquistas econômicas, como moto e dinheiro ("Qual Mentira Vou Acreditar"), o tema não muda: preconceito. Isso porque é uma praga que deteriora a possibilidade de integração racial e social no país. Essa é a bandeira que o hip hop assumiu e que os Racionais moldaram em sua melhor forma: o relato de um Brasil sob o viés da miséria. Isso está intrínseco e precisa ser escancarado. E "Sobrevivendo no Inferno" certamente é o maior documento desse legado.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Imigrantes chineses em São Paulo #2

Continuo a trajetória sobre os chineses no Brasil, que já foi abordado aqui.

A imigração dos chineses é antiga; ao contrário do que muitos pensam, ela começou no século XIX e foi estimulada pelos colonizadores portugueses para substituir mão-de-obra escrava.

Desde que chegaram por aqui, os chineses já eram alvo de preconceito. Pelos portugueses, que aportaram na China na infindável trajetória em busca das Índias; e pelos intelectuais brasileiros posteriormente, que acreditavam que os chins eram incapazes de ajudar o Brasil a se desenvolver. Geralmente, associavam os orientais ao escravismo e à submissão voluntária, algo que os lusitanos tinham observado quando fizeram uma pausa na China. Por isso os portugueses tentavam, mais e mais, trazer mais chineses para o Brasil, como tentativa de esforços para provar à Inglaterra que estava combatendo a exploração com os negros, algo que o país europeu vivia pressionando.

De primeira, fizeram os preparos para trazer cerca de 3.000 chineses na metade do século XIX. Só vieram cerca de 300 para trabalhar na antiga capital do Rio de Janeiro, próximo ao Jardim Botânico.

Mas eles não vieram substituir os negros. Para contornar a pressão da Inglaterra, os colonos pagavam salários baixíssimos aos orientais, que eram obrigados a assinar um contrato que exigia a permanência de pelo menos 5 anos trabalhando no Brasil.

Não demorou muito para que surgissem os primeiros subversivos. Alguns chineses conseguiram escapar de seus 'patrões' e começaram a se estabelecer na cidade, vendendo iguarias de seu país de origem. Foi mais ou menos por essa época que eles começaram a vender pastéis e plantar chá chinês.

Mas o estigma agourento de submisso continuou perseguindo os chineses no Brasil. Dificilmente conseguiam se adentrar em grandes cargos, mas conseguiram espaço em alguns serviços públicos, como secretariado.

A vinda dos imigrantes chineses ao Brasil é um reflexo da política da China. Antes de Mao Tsé-Tung chegar ao poder em 1949, ela sempre fora imperialista e restritiva; sustentava uma política exploratória nos campos e vigilantes nas poucas metrópoles que foram se firmando.

Não que tenha mudado muita coisa com a ascensão de Mao; ele fechou as portas da China para o diálogo internacional, tomou controle de toda sua população à sua maneira e criou um nacionalismo pernicioso que prejudicava vorazmente as minorias.

Nesse tempo, a diáspora chinesa foi diminuindo, porque Mao dificultava a saída de chineses para outras terras. Principalmente depois da Revolução Cultural, de 1966, que dizimou acadêmicos e colocava em prática a ideia de duplipensar que George Orwell teorizou no romance "1984". Ou seja, quem ousasse sair do país nesse tempo, dava brechas para o governo chinês pensar que algum ato de submissão estava sendo cometido. Isso apavorou muitos chineses.

O ano de 1978 é mais que histórico para os chineses. Além de ser o ano em que Deng Xiaoping anunciou a abertura econômica do gigante asiático, mantendo a mesma política socialista herdada de Mao, foi o ano em que a mudança social começou a fazer a diferença. A partir dessa época, muitos chineses também começaram a procurar melhores lugares para morar, para garantir uma vida financeira mais estável . E a diáspora se reiniciou.

Cerca de 35 milhões de chineses vivem fora do seu país de origem. No Brasil, vivem cerca de 200.000, fora os filhos dos imigrantes que nascem aqui. 90% desses imigrantes moram em São Paulo. Na Rua 25 de Março, que é o centro de pesquisa para uma grande reportagem (que será realizada por mim e + 3 colegas), trabalham cerca de 20.000 chineses. A maioria se concentra nos shoppings e galerias da região.

A dificuldade da língua é uma problemática. Eles aprendem o português geralmente no convívio com o brasileiro. Na 25, eles geralmente vendem roupas, artigos, acessórios de beleza, bolsas, relógios, etc. Vendem de tudo.

Mas, ainda hoje, persiste um preconceito muito grande com os chineses. Só que agora os papeis se inverteram. Se antes eles eram tidos como subversivos, hoje são mais taxados de exploradores, já que eles gerenciam boa parte do comércio na região da 25. Não se vê chinês trabalhando para brasileiro - muito pelo contrário. Quem fica atrás do balcão é o oriental. E de funcionário, não é só brasileiro; é fácil circular e ver bastante paraguaio e boliviano.

Essa inversão acabou criando um microcosmo na região. Chineses andam pra lá e pra cá pela 25 falando em mandarim, conversando com outros conterrâneos e se adaptando à realidade brasileira no ramo do comércio. É como se eles criassem uma mini-China na região central de São Paulo. Pelo menos, aparentemente.

Mas na prática não é assim. Não mesmo. Em outro post explicarei o porquê.

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Certo rapaz cometeu um crime. Não interessa o nome; ele vai pra cadeia mesmo e no presídio ninguém tem nome. Lá, ninguém tem honra. Muito menos condições humanas para viver a violenta clausura rogada de pragas pela sociedade.

Mais associado a um zoológico que um local de humanos, a cadeia é um castigo que o homem é obrigado a pagar pelos repugnantes atos que ferem a Constituição, a nossa lei. Quer dizer, numa bela teoria deveria ser assim. É realidade no Brasil que o pobre que rouba na esquina permaneça injustamente por vários anos num presídio enquanto uma dona de botique que fez um rombo de bilhões no Estado cumpra prisão domiciliar.


Entretanto, outro fato assustador está se transformando numa realidade brasileira: a falta de presídios. O Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) reclama que parte do investimento que deveria ser feito para a instituição não está sendo revertida na reforma dos presídios existentes ou na construção de novos. Em 2004, cerca de 69,5% da verba doada pelo governo foi direcionada para o Funpen. Hoje, dos quase R$120 milhões destinados, apenas R$21.447,70 foram aplicados para a reforma/construção de presídios. Ou seja, 0,02% do valor. A União alega que quer 'soltar a verba', mas não faz porque os projetos estão muito mal elaborados e são de
desinteresse político.

Enquanto isso, cadeias permanecem superlotadas, a condição dos presidiários vão além do castigo humano e muitos 'sem nome' permanecem engalfinhados pelo descaso do Estado.

Para se ter uma ideia, os 1.771 presídios do país mantêm em suas dependências 295 mil vagas para presidiários. Em 2008, o déficit de vagas era de 150 mil. Neste ano, já são mais de 174 mil presidiários 'a mais'. Por mês, entram 2 mil presos a mais do que saem. Pensa que é pouco?

Enquanto reclamamos de justiça no nosso país, muitos sofrem com a negligência de trás das grades. Esse número ainda é pequeno para revelar a gravidade do problema. No País, há 490 mil mandados de prisão não cumpridos. Ou seja, se todos estivessem presos, seria necessário dobrar os assentamentos para os presidiários.

Na verdade, o que realmente falta é um projeto decente para o presidiário. O
descaso contra quem sofreu os reveses da Justiça deve ser tratado com mais profundidade, com mais peculiaridade. O governo de São Paulo é um grande (mau) exemplo. José Serra tentou implementar presídios nas cidades do interior do estado, mas os projetos são mal elaborados. Os locais para construí-los geralmente são de dano ao meio ambiente ou geram controvérsias por interferirem no turismo dessas pequenas cidades, o que seria uma bandeira política que afugentaria votos.

O que deve ser pensado é uma macro-estratégia que permita que os presidiários tenham condições humanas em seus presídios e sejam preparados para reabilitarem-se quando cumprirem a pena. Vale lembrar que nem todos lá permanecem justamente. E o próprio presídio é um local de agravamento da criminalidade, como nos mostraram em maio de 2006 os violentos ataques da facção do Primeiro Comando da Capital (PCC).


Muito além de repensar o sustento ao presidiário, que cada vez mais vive em condições precárias, é necessário uma lei que permita que eles voltem com seguridade para o mercado de trabalho depois de reabilitados. Pelo menos alguma congratulação de boa conduta que permita que ele prossiga sua vida profissional, pois o mercado de trabalho é restritivo e muito preconceituoso contra aquele que já foi preso -- como se um ato falho cometido ulteriormente refletisse em toda sua vida.


Isso deve ser reparado com urgência, pois a não-assistência ao presidiário suscita em mais violência quando ele for libertado. Mais vidas são perdidas e, talvez bem além disso, a possibilidade de tornar um presidiário ou ex-presidiário como cidadão é desperdiçada.
Enquanto o descaso é mantido, enquanto os governos estão com a cabeça lá em 2010 e esquecem a totalidade dos danos que devem ser reparados, enquanto o dinheiro é segurado por uns e transviados para outras contas, mais 'sem nomes' entram no tráfico de drogas, afundam-se nas pérfidas condições dos cárceres e vão perdendo a serenidade, a lucidez e a vontade de se tornarem futuros cidadãos. Tudo isso por negligência de projetos, por falta de atenção e por interesses políticos que não permitem a inserção dos excluídos que já estiveram atrás das grades. E a violência aumenta.

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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Imigrantes chineses em São Paulo

Neste último final de semana fui à Campinas, juntamente com meus dois colegas Cleber Arruda e Ronaldo Sanaie, para conhecer um pouco do comércio dos chineses na região central da cidade, a convite do prof. Sung Tien Lo, que nos recebeu de forma muito cordial. Esta visita faz parte de nosso projeto acadêmico.

Imagem do Centro de Campinas

Orientados por Sung, caminhamos no centro da cidade e conversamos com alguns chineses, que nos receberam muito bem. Ao contrário da 25 de Março (cenário de nossa pesquisa acadêmica), que tem cubículos extremamente desorganizados devido a intensa movimentação, os lojistas de Campinas são orientados a adaptarem-se aos padrões comerciais brasileiros. Quem cuida disso é a Aliança Brasil-China de Campinas, da qual Sung é presidente. Eles auxiliam os imigrantes chineses a manterem um ambiente mais agradável em suas lojas, o que lhes assegura uma renda maior em seus negócios. "Nós aconselhamos a eles não deixarem objetos nas calçadas, o que obstrui a passagem dos consumidores, a organizarem melhor o espaço e não lotar de mercadorias", diz Sung.

Roberto, chinês dono de uma loja de variedades na região, veio para o Brasil há cerca de 20 anos atrás, com sua mulher. Ele trabalha com os filhos na loja. Quando fomos apresentados a ele pelo dr. Sung como universitários, de cara Roberto disparou, com um português bem dificultoso: "Vocês estudam em universidade pública?". Respondemos negativamente, no que ele rebateu: "Meu filho passou em muita universidade pública: Unesp, né... Ufscar... mas a Unicamp e a USP não".

Adoraria ter conversado mais tempo com Roberto, mas não foi possível no momento. A partir daí, pude entender que a nova geração de chineses que permanecem no Brasil não é mais estimulada pelo comércio. Roberto não soube definir a carreira que o filho quer trilhar. "Acho que... Administração", arriscou, sempre encerrando a frase com um sorriso cordato.

O prof. Sung Tien-Lo explicou que os chineses, quando vêm para o Brasil, formam laços de amizades similares aos brasileiros. "Vocês não ficam contentes quando vêm uma pessoa que morou na mesma região que você? É a mesma coisa". Isso facilita a permanência e a confiança destes imigrantes. Eles se instalam em pequenos cubículos, recebem apoio de antigos moradores chineses e 'se viram' para conquistar seu espaço comercial e garantir uma renda estável no país estrangeiro.

"O comércio é o porto seguro [do imigrante chinês no Brasil]". Quem afirma essas palavras é Chang, 50, que fala o português tão bem quanto qualquer outro brasileiro. Ele se mudou para o país quando tinha pouco mais de cinco anos e montou uma loja própria recentemente, há um ano atrás. Antes disso, sua família já foi dona de bares, restaurantes e diversos estabelecimentos, mas sempre com a premissa do comércio. Essa sina do imigrante chinês é devidamente explicada pelo dr. Sung: "O chinês trabalha no comércio porque não exige que se fale o português". Basta ter o produto para vender, estabelecer um preço e realizar a venda.

Muitos comerciantes chineses têm extrema dificuldade para se comunicarem. A língua portuguesa é um grande entrave para os imigrantes. Tanto é que, quando estão em família (algo comum entre os chineses, devido aos valores tradicionalistas que estão intrínsecos à moral predominante do país de origem), eles conversam em mandarim.

Entender a situação dos chineses no Brasil é complicado, pois a China vive um momento de transição e, aparentemente, isso não reflete nos chineses que estão por aqui. O gigante asiático abriu as portas ao mundo do capitalismo, com Deng Xiaoping em 1978, e está em ritmo acelerado de crescimento -- cerca de 10% do PIB ao ano, nessa última década.

Se antes os chineses repudiavam o consumo por manterem uma tradição da ética de Confúcio, o Jesus Cristo da China, hoje em dia os jovens chineses de lá já associam essa visão a um "pensamento arcaico", conforme constatado no Especial da China da Revista Veja (sei que ela não tem essa credibilidade, mas o conteúdo ficou bom, sim). E grande parte dos imigrantes chineses que vivem em São Paulo vieram pra cá há cerca de, pelo menos, 20 anos. E ainda mantêm as tradições de seu país de origem.

O que reforça ainda mais esse apego à tradição chinesa é o fato de serem imigrantes. Eles tentam fazer prevalecer a identidade cultural para se fazerem existir no Brasil, que muitas vezes o vê com preconceito. Roberto, que já voltou à China algumas vezes depois que se mudou para o Brasil é um exemplo. "Aqui as pessoas te vê diferente" "Mas, Roberto, a China também mudou bastante, não foi?", nós perguntamos. "Ah, mas não muda, é tudo igual. Você olha pra todo lado e vê todo mundo com a mesma cara, tudo igual. Aqui é todo mundo diferente da gente".

Portanto, engana-se quem afirma que aparência não quer dizer nada; ela é a válvula de escape, nesse caso, para os chineses. Saber que tem pessoas iguais vivenciando com eles a diferente realidade que é o Brasil da cultura chinesa, é uma forma de segurança. Muito mais que segurança, é um sentido de existência.

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terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma consideração ao dia das prostitutas


- Não acredito que tenha se rebaixado tanto!


- Por quê? Só porque dei uma?


- Não, pelo simples fato de ter pagado pra ter feito isso. Tem tanta mulher por aí!


Bizarrices como essas são recorrentes em uma moderninha turma de amigos sentados ao bar com copos de cerveja em mãos.


Categórica associação ao machismo, o homem que se preze adora comentar com o parceiro quando acerta no alvo e consegue trazer à prática a estadia perfeita com a mulher dos seus sonhos. Disso, entenda-se, conseguiu fazer sexo (com álcool e quiçá drogas) a noite inteira.


Por mais camuflado que possa parecer (para alguns posso estar falando grego), aqui no Brasil - pelo menos em São Paulo -, nem sempre se dão bem os homens que posam de machão; outras questões (as quais prefiro não citar) estão envolvidas, e a mentira às vezes paira nos papos de boteco quando aquele sujeito se vê encalhado na porca miséria da temida 'seca'.


Eis então que há uma salvação: os famigerados 'night clubs'.


No reduto de solteiros e casados, as garotas de programa atraem com suas técnicas de sedução tão diferenciadas quanto se possa imaginar para conquistar o cachê da noite e garantir o custo-benefício mensal para custear tarefas que jamais ligaríamos à profissão de uma prostituta.


E é aí que beira o problema. Se é permitido roubar e se reeleger quantas vezes der na telha; criar um rombo no estado equivalente à mais de R$1 bilhão e se manter em 'cárcere privado'; bater em favelado por ser suspeito e ainda dar lição de moral como sobremesa, por que até hoje paira um perceptível preconceito com as prostitutas em nossa sociedade?


Tudo bem que é impossível relacionar seus 'jobs' à honestidade, mas quem vive sem sexo depois de perder a virgindade? Como todos os personagens escrachados da horrenda cultura brasileira, as putas se integram às gargalhadas fáceis dos alvos das piadas, tal qual homossexuais, portugueses, argentinos, bêbados...


Sexo é bom e cada vez mais a sociedade admite sua onipresença. Fazê-lo em excesso não é abuso, tampouco viver às custas dele. Vale lembrar que muitas garotas se envolvem na prostituição por opção própria, mesmo mantendo boas condições de vida.


O único perjúrio acerca deste 'mercado' é a existência dos ditos 'cafetões', aliciadores do sexo que tratam as putas como 'produto' e lucram com o prazer proporcionado por seus órgãos genitais. Esta sim, pode-se dizer que é uma profissão repugnante, porque também faz uma lavagem cerebral em crianças imaturas que nem corpo possuem para a prática do sexo.


No simbólico dia da prostituta (já que pra tudo tem seu dia próprio), clamemos por uma independência destas 'profissionais' que mais uso fazem de sua beleza dionisíaca. Já passou da hora da sociedade enxergar que esse 'mercado' faz parte da vida de todos muito antes de Jesus perdoar Maria Madalena.


E já que o assunto é quebra de preconceito, é importante lembrar que recorrer ao prostíbulo não é sinal de depravamento. Muito pelo contrário, está mais ligada ao 'status', a uma boa posição na sociedade. O 'Bahamas' tá aí pra comprovar!


Portanto, botequeiros, deixem os nerds e abstêmios em paz.



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terça-feira, 12 de maio de 2009

Fúria em duas rodas

- Entre desvios tortuosos, o motoboy, um dos principais motores sociais para o desenvolvimento econômico, transita como minhoca urbana nas avenidas paulistanas. Retrucado por buzinas, o ‘cachorro louco’ raras vezes responde gentilmente. “Já chutei alguns retrovisores”, assume Adilson Ribeiro dos Santos. Assim vivem os motoboys, nem sempre com uma imagem positiva da sociedade: cortando carros, cumprindo metas e arriscando a vida no exercício de seu trabalho.

Fonte da imagem: http://oglobo.globo.com/fotos/2008/02/11/11_MHG_pais_motoboys.jpg

Cansaço e atraso são ações rotineiras na vida de Adilson. Aos 31 anos, casado e morador de Osasco, é pai de um filho que, não por coincidência, gosta de motos. A escolha da profissão não aconteceu de forma voluntária. Por estar desempregado desde 2001, decidiu que deveria usar sua motocicleta como instrumento de trabalho para sustentar a família. “A profissão é meio complicada, muito discriminada. Falam que todo motoboy é ladrão, mas a maioria é pai de família, tudo trabalhador”, desabafa. Nas adrenalinas da vida, percorre diariamente uma distância de 150 km passando por São Paulo, região do ABC, Osasco e cidades do interior. “Gosto mesmo é de pegar umas viagens, é melhor do que enfrentar a gente estressada no trânsito”, descreve Adilson com certo entusiasmo.

A questão social é palavra-chave para definir a problemática dos motoboys. Além de enfrentar o caos diário das megalópoles como São Paulo, eles têm que ‘se virar’ para realizarem seu trabalho com eficácia. Inseridos na base da infra-estrutura capitalista, vorazmente criticada por um dos ícones da sociologia, Karl Marx, eles delegam suas funções sob constante pressão para que o ciclo dessa engrenagem avance com vigor. O estudioso Augusto Stiel Neto, que elaborou um trabalho antropológico sobre os motoboys nas metrópoles, em poucas palavras relaciona a teoria marxista com esses trabalhadores na contemporaneidade: “Os motoboys, enquanto grupo e atores sociais, estão inseridos nas relações de trabalho capitalistas e, portanto, imbuídos de história das relações sociais e de sua evolução enquanto categoria”. Faz sentido: o motoboy, impreterivelmente, deve cumprir horários em determinada empresa, onde geralmente é encarregado pela entrega de malotes e correspondências internas. Para que essa empresa mantenha o giro econômico, é necessário que a entrega seja feita o mais rápido possível – por isso a contratação de um motoqueiro, que transita com mais facilidade nas vias arteriais das grandes cidades. “Andar sob duas rodas no trânsito é muito mais rápido e permite que a comunicação de várias empresas seja mais eficaz, possibilitando em mais produtividade”, afirma Clotilde Veiga, gerente de Recursos Humanos (RH) de uma empresa que ela não quis identificar. Não só a empresa como parte do quadro de funcionários internos também fica satisfeito com o serviço de entregas, uma vez que o setor de Recursos Humanos nem sempre se localiza na própria empresa. Em suma, os motoboys vivenciam na pele o período de globalização – tudo deve ser feito rápido e de maneira eficiente. “Vivemos em uma sociedade onde a velocidade é importante. As coisas precisam acontecer rapidamente”, explica a especialista em Sociologia Econômica e professora da Universidade de São Paulo (USP), Ana Maria Bianchi. A pressa impede que o cidadão espere alguma correspondência importante pelo correio e os motoboys, nas palavras de Bianchi, “são vitais para preencher essa lacuna da necessidade de transportar rapidamente entre os locais”.


Além de ser responsável por parte das entregas da Editora Globo de segunda à sábado durante 10 horas por dia, Adilson garante uma renda extra nas pizzarias por pelo menos quatro vezes na semana; ou seja, por aí vão, em média, 13 horas de trabalhos diários. “O mais difícil da profissão é encarar o trânsito, porque tem muita gente estressada, nervosa, muita fiscalização, muita ‘treta’”, relata o motoboy com certo tom de inconformismo. É por isso que ele prefere trabalhar à noite em uma pizzaria por ser mais sossegado. No mesmo caminho de Adilson encontra-se C. Silva, também de Osasco, 30 anos, casado e pai de dois filhos. Ele prefere não se identificar, pois sofreu um acidente que o fez perder a audição do ouvido direito e não consegue passar em testes de audiometria para renovação da carteira de trabalho. Caso ele arranje um emprego registrado em uma empresa e sofra um acidente, pode ser processado por negligência condicional. Apesar disso, nos fins de semana presta serviços para uma pizzaria no bairro de Alphaville, graças à indicação de Adilson. “É esporádico. Se fizer ganha, se não fizer, não ganha. Os caras te pagam de R$6 a R$7 por hora pra você trabalhar que nem um louco e ainda te xingam se você faz coisa errada”, escancara C..

É rotineiro ver motoristas de ônibus e automóveis particulares disparando palavrões aos motoboys nas mais movimentadas avenidas de São Paulo, como a 23 de Maio, Radial Leste e marginais Pinheiros e Tietê. E vice-versa. O motivo mais comum é a falta de atenção na ultrapassagem de carros para outras faixas, o que acaba resultando em fechamento dos motoqueiros e impedindo-os de circular livremente pela via. Como conseqüência, retrovisores são chutados, carrocerias são arranhadas ou, em casos extremos, uma mobilização maior de vários motoqueiros reunidos acaba comprometendo o fluxo no trânsito. Neste caso, vale ressaltar a força coletivista desse grupo, o que acaba por causar medo nos motoristas novatos e exige maior precaução dos mais experientes. “Se a gente [motoboys] não se unisse, com certeza os motoristas iriam errar mais e causar mais acidentes com os motoqueiros”, diz Alan Silva, que já trabalhou mais de seis anos em cima de uma moto. Ele afirma que, apesar de deixar de ser motoboy na profissão, o sentimento de ‘união com os parceiros’ não deixa de prevalecer. “Posso não conhecer o cara que está naquela moto da esquina, mas sei que se ele sofrer um acidente por imprudência do motorista, eu o defendo. E sei que não vou estar sozinho”, ressalta com convicção. Como Alan diz, acaba sendo mais um jogo de defesa que ataque por parte dos motoboys, uma vez que eles representam pura e vivamente o símbolo de desigualdade social. A professora Bianchi analisa com bons olhos que esses aventureiros em duas rodas, por serem funcionais despercebidos por parte da população, encontram uma identidade coletiva que garantem seu espaço na sociedade. “São as minorias que vão se unir, é natural. Um fenômeno que é bom, embora eles corram e tenham formas de vida arriscada”, teoriza. É como se eles ajudassem a formar a base de uma pirâmide: dependem do transporte para trabalhar, movimentam a economia citadina e ainda estão vulneráveis aos acidentes fatais nas grandes avenidas. O jornalista de O Globo, Adauri Antunes Barbosa, informou os seguintes dados: os motoboys executam 98% das entregas em domicílio no setor de alimentos e transportam 85% dos medicamentos e produtos da área de saúde, como bolsas de sangue e pequenos equipamentos cirúrgicos; movimentam 60% dos malotes dos grandes bancos e são responsáveis por todo o serviço de entregas da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Para todo esse serviço arriscado, os motoboys ganham, em média, um salário de R$1 mil, dos quais são descontados do próprio bolso os valores de combustível, uniformes empresariais, capacetes e manutenção da motocicleta. “Líquidos, sobram menos de R$500” disse Moacyr Alberto Paes, diretor da Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo).

Segundo números da Abraciclo, cerca de 680.000 motocicletas circulam pela capital paulistana, o que significa um aumento de 127% da frota de dez anos atrás. Desse número, pelo menos 150.000 motoboys são registrados. Parte desse crescimento na compra de motos se dá pela facilidade de crédito. Há quem especule que essa estatística pode aumentar com o infindável acúmulo de automóveis de passeio nas ruas. “Eu acho que uma hora vai parar tudo, de tanto carro que está saindo. É muito carro! Desse jeito, só moto vai andar e bem devagar”, profetiza C. Silva. E ainda arrisca o prognóstico: “A solução para resolver o problema é deixar somente os profissionais na rua; quem passeia deve travar o carro em casa. Esse pessoal tem que andar de ônibus, bicicleta, metrô”. No início do ano, a tentativa de reservar uma faixa exclusiva para motoqueiros na Avenida 23 de Maio foi frustrante. Segundo a Folha Online, “em média, a via tinha, entre as 10h e às 16h, 3 km de lentidão. O índice saltou para uma média de 5 km depois que a nova faixa foi implantada”. Apesar do aumento de compra de motocicletas, o fator social permanece discriminatório em relação aos veículos de passeio. “Quando a pessoa compra um automóvel, se sente mais poderosa [econômica e socialmente]. É uma forma de deslocamento em uma cidade onde a qualidade de transporte coletivo é muito ruim”, define Ana Maria Bianchi. Já o experiente motorista Arnaldo Silva, de 42 anos, pensa de forma diferente. Ele tem dois automóveis para “burlar o rodízio”, pois também depende dele pra trabalhar. Arnaldo acredita que a conduta dos motoboys não se explica com o crescente acúmulo de carros e diz não ter interesse de deixar o automóvel em casa para tomar ônibus até o trabalho. “Sei da importância do rodízio, mas eu me desloco de uma loja para outra. E essa movimentação não tem condição de ser feita com o precário transporte de São Paulo”, afirma o supervisor de cozinhas da rede de restaurantes Ráscal. Fica difícil reverter esse quadro quando se depara com o aumento da venda de veículos de passeio no país. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou que as vendas do setor aumentaram 30,1% no primeiro semestre desse ano em relação ao mesmo período de 2007, somando um total de 1.338.078 unidades comercializadas. Em outras palavras, como dificultar o crédito de um setor que enche os cofres da economia do país?

A vulnerabilidade é ainda maior quando se analisa o indivíduo sobre as duas rodas; os motoboys são alvos fáceis de policiais no trânsito de São Paulo. Na visão da maioria desses profissionais, os ‘enquadros’ ocorrem por haver uma generalização negativa por parte da polícia e da própria sociedade. Adilson foi uma dessas vítimas. Certa vez, enquanto ia para o trabalho, foi parado por um policial por estar com o retrovisor rachado. Mesmo com todos os documentos legalizados, teve a moto apreendida. “Tive que ficar um mês e meio sem trabalhar até regularizar a situação”, relata o motoboy. O teórico Augusto Stiel lista alguns dos principais problemas decorrentes da violência que acerca o cotidiano dos motoboys: “Barrados em bancos por não terem atestado médico sobre um pino que colocaram na perna por força de um acidente acontecido há anos, parados em blitz policiais, sempre multados por constantes infrações e tratados como marginais pela imensa maioria da população, os motoboys justificam seu comportamento muitas vezes violento como forma de defesa pelo tratamento que recebem. Isso sinaliza para uma hipótese interessante nas relações sociais citadinas: algumas categorias poderiam dar vazão à violência latente, presente na tensão permanente da disputa territorial na cidade, como uma forma de defesa justificada frente a constantes e reiteradas demonstrações de preconceito”. Bianchi enxerga a situação por uma ótica diferenciada. “Não sei se é preconceito, porque os motoboys têm uma atitude que de fato atrapalha o transito. Eles são vítimas, mas também causam acidentes. É mais um conflito de atitudes e de situações mal resolvidas”. Na visão da socióloga, a exclusão social do motoboy, que gera a agressão generalizada e, ao mesmo tempo, um sentido de unidade entre eles, é gerado pela negligência social suscitada pelo cotidiano corrido das megalópoles. “Numa cidade como São Paulo, a presença de motoboys está em todo lugar, e é um fato que nem se discute. Na verdade, as pessoas nem prestam muita atenção na profissão deles”, contesta. E essa insatisfação com o trabalho já vem por parte dos motoboys. “Todos os veículos na rua criam uma situação violenta de coordenação. A própria profissão dos motoboys os deixam agressivos. E os motoristas também tomam atitudes agressivas, por isso ocorre esse choque”, complementa Bianchi.

O cenário é pessimista e desilude qualquer fanático por duas rodas que não encontra outra profissão. “Todo motoboy quer sair dessa vida”, afirma C. Silva. Adilson Ribeiro já cansou de passar por situações complicadas nas ruas de São Paulo, mas diz reservar uma ‘graninha’ para atingir seus objetivos. “Meu sonho é ser professor de educação física”. As limitações do transporte, a relação social com os motoristas de automóveis particulares e o fardo de sustentar uma família não são as principais pedras no caminho para que o seu sonho seja realizado. “Na verdade, o que me falta é tempo”.

Veja a entrevista com Giuliano Cedroni, roteirista do documentário Motoboys: Vida Loka, dirigido por Caito Ortiz, com algumas cenas do longa:



MINI-DICIONÁRIO DO MOTOBOY

- Cachorro louco: motoboy temerário, que pilota com arrojo, podendo causar perigo para si e para os outros motoristas e pedestres;
- Comprar chão ou comprar terreno: cair da moto;
-
Sem terra: alguém que nunca comprou chão;
- Corredor: fileira que fica entre os carros no congestionamento por onde passam os motoboys;
-
Aloprado: Serviço arriscado;
- Bração: Motorista que atrapalha o motoboy;
- Trampo-roça: Entrega em lugar distante.

*Esta reportagem foi originalmente escrita em setembro/2008 e publicada no Portal Anhembi, com uma formatação diferenciada (a qual não gostei muito, por isso o post!)

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