sexta-feira, 13 de março de 2009

08. Um batom e um vestido, por favor

PUNK ROCK - NEW YORK DOLLS (1973)

Você acha que até o momento todos os paradigmas já tinham sido quebrados e a cena punk já estava devidamente arquitetada? Ledo engano.

Por mais que a instrumentalidade já estivesse definida pelas guitarras de Lou Reed e Fred ‘Sonic’ Smith, na performance endiabrada de Iggy Pop, nas baquetas malévolas de Scott Asheton e nos baixos regulares dos integrantes que formavam a cena proto-punk, muita coisa ainda estava para acontecer.

A começar pelo comportamento. Não tinha mais essa de ser ‘uma-banda-normal-cujo-interesse-é-satisfazer-os-padrões-para-atingir-sucesso-comercial’. Peraí que já vou situá-lo: a interpretação do que deve ou não ser rock’n roll em sua estética mudou com o surgimento dos New York Dolls. Mas onde estava toda essa ousadia? Ora, nas vestimentas!

“Achei que todos eles fossem gays. Eu estava errado, é claro. Eles estavam fingindo ser gays”, contou o fotógrafo Leee Childers ao deparar-se com David Johansen (vocais), Johnny Thunders (guitarra solo), Syl Sylvain (guitarra base), Arthur Kane (baixo) e Billy Murcia (bateria) com trajes femininos tocando um repertório que ia de Otis Redding a Sonny Boy Williamson. Na verdade, eles queriam impressionar alguém influente para conquistar alguma gravadora. Objetivo comum naquele tempo.

Tamanha originalidade, tanto visual quanto performática, só podia vir de alguma referência historicamente próxima – isso pra não dizer contemporânea deles. Segundo a ex-modelo e mãe da atriz Mia Tyler, Cyrinda Foxe, “ao fundar os New York Dolls, David Johansen se apropriou do lance escandaloso do teatro ridículo e colocou no rock’n roll”. O tal do ‘teatro ridículo’ consistia em peças de John Vaccaro, Charles Ludlam e Tony Ingrassia em representações que exigiam total ousadia dos atores para vestirem-se de mulher, enfeitarem-se de purpurina e atuarem em papéis anormais, como cagar-se todo (de merda mesmo!) durante um questionamento existencial.

Fora a incorporação desse novo movimento dos drag queens, que estava surgindo nas casas noturnas com as diabólicas apresentações dos ‘teatros ridículos’, os Dolls também resgataram a característica rock’n roll das músicas de três minutos, fugindo daquele clima jam session que as canções de sucesso da época estavam buscando.

O que se vê são canções barulhentas com um quê de sentimentalidade atroz e descompromissada com qualquer tipo de profundidade nas letras. Faixas como “Personality Crisis” e “Looking For a Kiss”, as principais do grupo, atropelam o lirismo como se fossem caminhões de carga sem rumo pronto para estraçalhar o que surgir pela frente. Infelizmente, para conclusão do álbum, o baterista da formação original, Billy Murcia, não estaria presente, vindo a falecer um ano antes por conta de uma overdose intensificada pela ausência de socorro, após injetar heroína. Em seu lugar, entrou Jerry Nolan.


Assim como os fins não justificam os meios, os integrantes do New York Dolls jamais mensurariam a influência que seriam posteriormente. Suas atitudes irreverentes e a mesclagem simbólica que fizeram para atingir a unicidade foram cruciais para o surgimento do glam rock, onde a atuação em palco dos artistas aparenta ser mais relevante que suas próprias canções - algo que posteriormente Aerosmith, Kiss, Mötley Crue e Guns’n Roses viriam a explorar. Parcialmente, uma contribuição mais válida pelo comportamento que pela sonoridade. Por isso sua associação ao punk rock.

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