quarta-feira, 8 de abril de 2009

11. Punk Ponderado



Television - Marquee Moon (1977)
Às vezes ocorre de um movimento ser ligado à homogeneidade. No cenário do punk rock foi mais ou menos assim: depois do surgimento dos Ramones, parecia que tudo se tornaria banal. O fato é que o punk seguiu outros caminhos com o Television. Foram eles que abriram a cena no famoso CBGB, lá em 1974, para os destaques que surgiriam posteriormente (inclusos os Ramones) e exploraram uma musicalidade que exigia muito mais rigor técnico e sincronia vocal.

Formado inicialmente pelo baixista Richard Hell, o guitarrista solo Tom Verlaine (ambos também vocalistas) e o baterista Billy Ficca, eles buscaram influências que somavam a morbidez poética de Jim Morrison e Lou Reed unida à virtuosidade dos acordes de Ron Asheton, dos Stooges. De fato resultou-se um trabalho esplêndido que explorava outras rédeas no âmbito do rock. A lei poderia estar imposta pelos Ramones: três acordes, anarquismo vocal e canções curtas. Só que o Television contornou toda essa cena e possibilitou uma outra interpretação para a rebeldia que o movimento vociferava.

De início, Hell e Verlaine foram muito amigos no colegial, mas debateram egos para definir que segmento explorar na banda e acabaram se desentendendo. Enquanto Verlaine procurava uma identidade punk associada à sua formação literária e obtia acordes que pudessem enfatizá-las enquanto canção tocante, Richard Hell propunha um estrondo idiossincrático que estabelecesse a originalidade da banda - tudo influência da sua crise de personalidade. "Sempre pensei que toda aquela coisa que eu estava fazendo era tentar ser verdadeiro e honesto, o que quer que isso signifique. Eu sempre tentava ter a visão oposta à da pessoa que estava tentando analisar, assim eu estava deliberadamente dando tanta latitude quanto fosse possível", declarou Hell.

Essas divergências culminaram na desintegração de Hell ao Television. O baixista saiu e formou o The Voidoids com toda sua insanidade. Mas Verlaine não se abalou. Continuou com o segundo guitarrista, Richard Lloyd, e chamou Fred Smith para assumir o baixo. E ele deu continuidade ao que tinha planejado: um baixo harmonioso de Smith que desse a base de suas improvisações criativas na guitarra, com o complemento de Lloyd.

Marquee Moon foi lançado em 1977, meio alheio à explosão que surgia com os Sex Pistols/Ramones/The Clash. O motivo? Ele foi um álbum cuidadoso em todos os detalhes, com arranjos que simbolizavam a ponderação que Verlaine exigia em sua finalização. "See No Evil" introduz o álbum com a sincronização dos vocais e das guitarras de Tom Verlaine e Richard Lloyd. "Friction", uma das mais marcantes, remonta a uma sonoridade velho oeste com as experimentações de Verlaine na guitarra principal. Os backing vocals dos demais integrantes evidenciam a qualidade de um trabalho que mereceu o reconhecimento que os críticos lhe deram. Graças a esse album, o Television virou um épico do rock'n roll.

Por que? Certamente graças à canção-título, "Marquee Moon". A riqueza poética unida aos solos de guitarra de Verlaine e Lloyd e à pontuação rítmica dos baixos de Smith levam o ouvinte a uma jam session totalmente fora das prerrogativas que o punk rock havia se transformado até então. São mais de 10 minutos enlouquecedores de plena virtuosidade estética - ao vivo, já chega a durar mais de 15 minutos.

E ainda há espaço para a sensibilidade de "Guiding Light" que realmente toca os ouvidos. Tudo isso em um álbum de oito faixas que certamente mudaram os rumos do movimento punk. Na opinião do autor destas linhas, a maestria de Marquee Moon é um grande marco: o melhor de todos os álbuns de punk rock. Tem que escutar para saber.

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