sexta-feira, 10 de julho de 2009

Vivemos a era do single

A era do álbum já era. E, quando afirmo isso, não ponho em xeque o fato do consumidor não ir mais à loja para comprar música; o ouvinte não mais escuta uma obra musical partindo do conceito de que uma gama de canções completam um conteúdo artístico único.

Isso porque a internet mudou os padrões de se ouvir música. Ao contrário dos aparelhos de sons e vitrolas, em que colocamos um CD/vinil para rodar por completo -- movidos pela magia da compra de um álbum com seus encartes -- hoje o internauta tem facilidade para criar uma playlist própria que contemple as músicas que mais gosta. Ou seja, ao invés da era em que os amantes de música ficavam ávidos pelo próximo álbum do artista, hoje o consumidor fuça ávido por uma música que tenha vazado na rede. É a chamada era do single.

Na verdade, nem sempre o conceito de álbum fez parte da cultura musical. Antes da explosão dos Beatles, artistas populares de jazz, blues e rock'n roll exibiam suas canções através de espetáculos movidos pelo show business e pelas grandes produtoras/gravadoras de áudio. Mesmo porque as long-plays dos anos 40 e os primórdios do vinil no final dos anos 50 não suportavam a mesma quantidade de músicas que o CD e o auge do "bolachão" (anos 60-80) armazenavam. Então, como que a popularidade era conquistada? Com as explosivas apresentações ao vivo, proporcionada, mediada e impulsionada pelos grandes managers, tal qual Sam Philips e Berry Gordy Jr. E, claro, fortemente auxiliados pela febre do rádio nos anos 30-40, que moldaram o comportamento e definiram, de uma vez por todas, o conceito de cultura pop.

Os Beatles, principalmente a partir de sua fase psicodélica -- teoricamente iniciada em 1965 --, lançaram o primeiro trabalho que amadureceria o conceito de música numa banda popularesca: Rubber Soul. Influenciados pela maestria lírica e extrema profundidade sonora de Bob Dylan, este álbum dos Beatles explorou os mais variados sons possíveis para compor a obra. Mas, o conceito de álbum mesmo veio com Pet Sounds, dos californianos dos Beach Boys. O trabalho pensou em todos os singles como fragmentos autorais que estão intrínsecos a uma obra singular. Eles - Brian Wilson - uniram todas as influências possíveis e arquitetaram uma obra magistral que pressupunha todas as nuances de um amor adolescente perdido, vago pelas substâncias da maturidade. Não à toa, Pet Sounds foi uma influência declarada de Rubber Soul.

Entretanto, foi com Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, em 1967, que o beatle Paul McCartney convenceu os demais integrantes a formarem uma peça autoral que definisse os estágios sentimentais de um personagem que eles criaram, o Sargento Pimenta. A partir daí, os grupos de rock, músicos de jazz e demais expoentes da música popular começaram a aproveitar a vantagem de montar um conjunto de músicas pensando num trabalho único. Foi a partir dessa ideia que nasceram os clássicos do porte de Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd; Horses, de Patti Smith; Songs In The Key Of Life, do Stevie Wonder; e The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, do David Bowie. (E, claro, muitos outros.)

O ouvinte, a partir desse conceito, também encarava a música de uma forma mais complexa. Por exemplo, ele se esforçava em entender porque o Jimi Hendrix colocava "Hey Joe" como a faixa 1 de seu primeiro álbum, ao invés de sua mais conhecida, "Purple Haze". E era justamente aí que se encaixavam as estratégias de cada manager para angariar novos ouvintes e agradar ainda mais os fãs de determinado artista.

Pensando assim, é como comparar um álbum a um livro: enquanto uma obra literária é dividida por capítulos, o trabalho musical se dividia pelas músicas. E aí tudo muda. Por exemplo, Sgt. Pepper's é considerado o melhor álbum de todos os tempos por muitos críticos, mas não apresenta nenhum single de grande sucesso dos Beatles, tal qual "Let It Be", "A Hard Day's Night" ou "Hey Jude". São 13 faixas que formam um conjunto.

A partir desse pressuposto que os críticos musicais avaliavam os trabalhos lançados. Citavam as músicas, faziam uma sucinta análise de cada single, e pensavam no álbum como um todo para escreverem suas críticas.

Mas, agora, parece que tudo isso tende a se dissipar.

O aperfeiçoamento do walk-man ao iPod permitiu que os ouvintes criassem 'o seu próprio álbum'. Talvez isso seja uma influência dos disc-jockeys, que a partir dos anos 90 tornaram-se produtores musicais e tocavam seus sets juntando um aglomerado de remixagens formando 'o seu próprio álbum' e ganhando notoriedade artística. Com o advento da música eletrônica, o set pré-estabelecido foi sumindo, dando lugar à improvisação do DJ, movido pela energia das pistas e empolgação do público. Daí, o que se tem? Uma junção de hits comerciais (ou que acabam se tornando comerciais) que formam uma unidade abstrata, inexistente. Do álbum, partiu-se para uma adaptação às emoções dos ouvintes. Não é mais a iconoclastia, as vontades, os ensejos, as alucinações do artista que são expostas através das faixas; é a vontade do público em querer ouvir o que quer que dá as diretrizes das canções -- pensando no DJ.

Já o álbum comercial perdeu seu valor e tornou-se um amontoado de singles que fizeram ou não sucesso nas rádios. Basta ver o que se tornou Charlie Brown Jr., com o passar dos tempos, e as atuais como Fresno, NX Zero, Rihanna e mais um monte que não tenho conhecimento e nem capacidade de citar.

E isso é uma síndrome de decadência do poder do rádio/show business. Por mais que estivessem por trás de investimentos gigantescos dos managers e de uma publicidade poderosa, ainda se fazia música de qualidade. James Brown, Rolling Stones, Michael Jackson, Ray Charles são alguns claros exemplos. Hoje, o que se pode citar?

Foi devidamente essa decadência e a imposição de um padrão arcaico para novos artistas que destruiu de vez a qualidade da indústria fonográfica. Agora, destacam-se músicos independentes que integram suas influências criando obras únicas, que ainda refletem o ciclo de mudanças em que a cultura musical está inserida. Felizmente, com a internet e a facilidade de produzir música, há uma leva de bons artistas garantindo destaque na cena -- assim como há uma leva de baboseiras também, logicamente.

Só que, diferente de pensar uma obra conjuntural, investe-se mais na produção de músicas soltas. E, a partir da aceitação deles, cria-se um álbum que contempla um conjunto de singles. Tudo para que o consumidor selecione as melhores canções e monte sua própria playlist, para ouvir enquanto caminha pelas ruas ou enquanto mexe no computador.

Novas estratégias podem ser pensadas tomando essa especificidade, mas a beleza, a interrogação, o prazer de se escutar um álbum como uma obra magistralmente orquestrada, jamais deve ser deixada de lado. E isso ainda pode ser valorizado, mesmo por essa cultura cibernética do iPod: basta escutar cada álbum como se fosse um single.

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2 Atemporalizados:

Lady Sixties disse...

Opa! Finalmente alguém que fala minha língua! Como eu não achei esse blog antes? Então, sobre o post tudo hoje pode ser uma influência da moda dos "ipods" ou porque os artistas atuais não fazem um album ou qualquer coisa criativa! Então o povo escolhe o que quer ouvir. No meu caso e de muitos que gostam de músicas antigas, ainda sim baixamos a discografia completa do artista ou pelo menos gostamos de um album do mesmo. Hoje está dificil viu!
Parabéns pelo post e pelo blog!
Adorei!
bjs

Tiago Ferreira da Silva disse...

Pois é, Sixties, hoje em dia o negócio é singularizar a música.

Mas ainda há artistas muito bons que preferem fazer música à moda antiga. O que comprova são aquelas extenuantes listas de melhores álbuns do ano/década/século.

Talvez esse seja o modo de sobrevivência dos álbuns. Ou não.

Obrigado pelo comentário, volte sempre!
Beijos!!

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