Ninguém jamais conseguiu entender Raul Seixas. Em contrapartida, quase todos os fãs de música brasileira acompanham as letras de suas canções facilmente. Quem nunca foi em um bar de música ao vivo e escutou, num derradeiro momento, algum sujeito pedir, implorar ou até mesmo tirar uma onda com os músicos, ao gritar "Toca Raul!"?

Simplesmente porque o baiano menos baiano de todos tinha uma forte aproximação e demasiado interesse com o popular. Nascido em Salvador, no ano de 1945, Raul foi um dos pioneiros do rock no Brasil. Ao contrário dos Mutantes, que nos anos 60 se engajavam num cenário de extenso experimentalismo sonoro, Raul viu no rock'n roll o âmbito perfeito para soltar suas letras anárquicas e desconexas.

E o pior é que, por mais que suas canções soem politizadas, não foi por intenção do cantor. O próprio Paulo Coelho, seu grande parceiro, disse que o interesse de Raul Seixas era o popular. Mas um popular despretensioso, não estratégico para angariar mais e mais ouvintes. Raul Seixas queria mesmo mostrar que era possível trabalhar o imaginário coletivo unindo diabo, religiosidade, ideologia e ideais abstratos num grande número de ouvintes. E conseguiu com êxito. Em qualquer lugar que se vá que 'toquem Raul', verá a multidão acompanhando a maioria das canções: "Há 10 Mil Anos Atrás", "Gita", "Metamorfose Ambulante", "Como a Vovó Já Dizia", "Sociedade Alternativa", "Maluco Beleza"... A lista é grande.




Por mais que abraçasse de vez o popular, o compositor roqueiro nunca agradou os holofotes de sua própria terra natal. Grande fã de Luiz Gonzaga e da iconoclastia de Elvis Presley, começou com Os Relâmpagos do Rock, em 1962, que mais tarde passou a se chamar Os Panteras. Em 1968, eles gravam no Rio de Janeiro, pela Odeon, o álbum "Raulzito e Os Panteras", que acabou desiludindo um pouco o compositor. Carlos Imperial, dono da gravadora, despachou a banda e mandou eles voltarem para a Bahia, pois alegou que aquele rock já estava ultrapassado, principalmente com a invasão do iê-iê-iê.

Na Cidade Maravilhosa, acaba trabalhando como produtor para a CBS. É de sua autoria duas canções do primeiro álbum de Jerry Adriani, que era seu amigo: "Se Pensamento Falasse" e "Seu Táxi Está Esperando", que emplacaram.

Depois de muito produzir, acaba se injuriando. "Não sou produtor porra nenhuma!". E lança "Sociedade da Grã-Ordem-Kavernista" (1971), gravado às pressas em 15 dias, influenciado por Frank Zappa e o Mothers of Invention e algumas descobertas roqueiras que seus amigos do estrangeiro lhe mandavam. Só em 1973 as apostas em Raul como cantor seriam uma realidade, com o lançamento de "Kring-Ha Bandolo". O álbum já trazia algumas composições em parceria com o escritor Paulo Coelho, como "Al Capone" e "As Minas do Rei Salomão". Por fãs e críticos é considerado o melhor disco do roqueiro, pois nele se concretizavam suas proximidades com o popular, resultando em "Mosca na Sopa" e "Metamorfose Ambulante".

A partir daí Raul Seixas despontaria como o principal expoente do rock brasileiro. Canções como "Gita", do álbum de mesmo nome de 1974, "Há Dez Mil Anos Atrás", de 1976, "O Dia Em Que a Terra Parou", de 1978 e "Metrô Linha 743", de 1984, para sempre ficariam marcados nos redutos boêmios de rock.

Infelizmente, em 21 de agosto de 1989 foi encontrado morto por sua empregada no apartamento em que morava, em São Paulo. O motivo alegado foi pancreatite, causada pelo excesso de álcool. Dizem que não era difícil ver Raul tomar um hi-fi com exageradas doses de vodka.

Raul Seixas escreveu suas linhas na história da música brasileira porque soube aproveitar de forma profícua o terreno do rock no Brasil. Por mais que ele tivesse desfavorecido pela exaustão da fórmula da Jovem Guarda, ele soube impor seu lado niilista de compositor sem gerar confusão alguma no imaginário de seus ouvintes. Eles podem não entender uma minúcia do que Raul prega, mas se sentem na 'sociedade alternativa' quando escutam o hino do roqueiro.

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4 Atemporalizados:

Ana disse...

Esse aí faz muita falta. Imagine a crítica ácida dele hoje em dia.

Germano Xavier disse...

"Se esse amor, ficar entre nós dois, vai ser tão pobre amor..."


Ouvi muito Raul quando era mais novo. Morei no bairro de Brotas, em Salvador, literalmente embaixo do cemitério onde ele está enterrado. No dia dele, muita gente sobe a ladeira com violão e homenageiam-o.

Muito bom, meu caro.

Abraço forte.
Sigamos...

Tiago Ferreira da Silva disse...

Ana, com certeza. Só o niilismo fugaz de Raul serve como terapia p/ o caos atual.

Tiago Ferreira da Silva disse...

Germano,

Obrigado pelo comentário. Toda homenagem a esse iconoclasta é pouca. O legal é que o cara é eterno. Pode ir em qualquer bar voz e violão, pelo menos de Sampa, que vc ouvirá alguém gritar 'toca Raul'.

O cara impregnou no imaginário dos ouvintes. No bom sentido, é claro.

Abraço!

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