segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma Fender na mão e muita psicodelia na cabeça

Há 40 anos atrás, acontecia o último dia do Festival de Woodstock, famoso por ampliar os ideais psicodélicos da geração sessentista e revelar uma indignação contra os rumos políticos que os EUA estavam tomando. Se foi eficaz ou não, não cabe questionar.

Muitos artistas participaram do festival, dentre os quais se destacam
Sly & Family Stone, Country Joe, Joe Cocker, Santana, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Janis Joplin e The Who.

Adoraria discorrer sobre cada fragmento de Woodstock, que durou entre os dias 15 e 17 de agosto de 1969. Para não deixar esta data em branco, aqui vai uma postagem sobre o maior ícone deste festival, o guitarrista Jimi Hendrix.



No dia 18 de setembro de 1970 jazia o maior e mais influente guitarrista que o universo musical já criou: o virtuoso Jimi Hendrix. Aclamado por pelo menos 98 entre 100 guitarristas, seu legado vai além da maneira de tocar o instrumento; navega entre o tom melódico e doce, solos flamejantes , temáticas pacifistas, viagens psicodélicas e riffs pegajosos (não há como não repetir aquele riff de"Foxy Lady"). Um ícone mais profundo que seu próprio trabalho, apesar de sua morte precoce, deixou apenas três álbuns de estúdio, uma coletânea, algumas compilações com a Band of Gypsys um registro ao vivo.

Já causava espanto para roqueiros daquela época observarem um jovem negro, magro, cabeludo e de olhar melancólico pelo envolvimento com sua música, trocar o braço da guitarra de lado e inverter suas cordas para executar seus solos únicos. E essa magia não se resume à técnica. Hendrix foi responsável por popularizar de vez os recursos da guitarra elétrica, compondo e tocando, com maestria, rock´n roll ("Crosstown Traffic"), rhytm´n blues ("Voodoo Child [Slight Return]) e soul music ("Castle Made of Sand").

O que transcende ainda mais o seu trabalho é saber que guitar heroes que já estouravam antes de sua aparição o consagram como revolucionário e influente - como é o caso de Pete Townshend, lendário membro do The Who. "Jimi Hendrix era extraordinário. Tinha uma habilidade alquimista nos palcos", escreveu à Rolling Stone EUA. "Já no estúdio, ele era diferente, havia uma mudança metafísica. Ele soava melódico, doce".




A experiência


Em 1967, a Guerra do Vietnã comovia o sentimento libertário dos jovens hippies, que protestavam essa catástrofe generalizada que o governo norte-americano iniciou. Para protestar, organizavam festivais ao ar livre (do qual Woodstock foi o mais conhecido), com shows que criticavam severamente a guerra e promoviam a utópica paz mundial. Desse movimento hippie, que teve seu berço em São Francisco, surgiram bandas psicodélicas que posteriormente se tornariam célebres nomes do rock. É o caso de Jefferson Airplane, Janis Joplin, Grateful Dead, The Byrds...

E essa 'paz espiritual' era atingida por canções instrumentais com mais de 7 minutos de duração - algo totalmente 'anormal', visto que cada música tinha, em média, de 3 a 4 minutos. Nessas 'trips' desvairadas, a virtuosidade instrumental era a habilidade mais explorada pelas bandas e venerada pelo público, que não resistia àqueles solos acalentadores nas jam sessions.

Dessa cena emergente, Hendrix foi sabiamente descoberto por Chas Chandler, do The Animals, e montou o The Jimi Hendrix Experience, com Noel Redding no baixo e o esquizofrênico Mitch Mitchell na bateria. Tanta devoção pelo instrumento o tornou reverência para guitarristas do porte de Eric Clapton e Jeff Beck. Um tempo depois, gravaram aquele que seria considerado um dos maiores debut albuns na história do rock, Are You Experienced?, citado na maioria das listas dos grandes álbuns. O disco trazia clássicos como "Hey Joe" (regravada por estrangeiros até hoje, tendo, inclusive, uma versão 'abrasileirada' tocada por O Rappa), as pegajosas "Foxy Lady", a incandescente "Fire" e o blues de "Can You See Me". Sem contar a marcante "Purple Haze", que remete a uma esplêndida viagem de ácido lisérgico e propõe ao ouvinte um mergulho na complexidade de sua própria mente. Essa canção é citada como a 2ª melhor canção de guitarra, pela revista americana Rolling Stone.

Tamanha virtuosidade técnica e uma composição melódica de arrepiar permitiu uma forte identificação com os jovens hippies de 67. E eles sentiam essa magia ao vivo, com uma performance incendiária de Hendrix frente à multidão, que chegou a queimar uma Fender Statocraster após uma apresentação em Woodstock. (Recentemente essa guitarra foi leiloada por um valor equivalente a R$830 mil). Se somos experientes, não sabemos. Mas sabemos que essa intrigante pergunta de Hendrix foi um teste sonoro para os ouvidos daquelas cabeças pensantes. Será que estavam preparados para ouvir sua música?


O experimento

Muitos sociólogos, pesquisadores e principalmente a mídia contemporânea, veem em 1968 o ano que marcou o século XX. Uma data marcante que sempre deve ser lembrada pela aversão geral à selvageria capitalista e contemplação à igualdade social e aos direitos humanos. Sim, é uma afirmação verdadeira, porém essa sociedade não deixa de ser um traço daqueles revolucionários de 1967. Não fosse a rebeldia jovem contra o envio de soldados ao Vietnã, provavelmente os estudantes de Praga ou da Universidade de Sourbonne teriam sucumbido às manifestações anti-capitalistas. Ah, e vale ressaltar que toda essa rebeldia foi um ato contínuo no período de 67, quando vigorava a procura por uma paz mundial e o amor pelo outro. Tudo isso alimentado pelos mais importantes álbuns que a história do rock já produziu: Sgt. Peppers, The Doors, The Piper At The Gates of Dawn, The Velvet Underground & Nico.



E foi justamente nesse ano que Hendrix, símbolo musical da ideologia hippie, se aventurou a lançar mais um clássico. Axis: Bold as Love, mesmo sendo o mais esquecido dos álbuns do mestre, pode ser considerado o trabalho mais ousado do artista (listado entre os 10 álbuns mais experimentais de todos os tempos realizado pela revista Mojo). Faz sentido: logo na primeira faixa, "EXP", Hendrix parece prevenir o ouvinte de uma revolução sonora que está por vir ao longo das 13 faixas. É então que vem o anúncio na música seguinte, "Up From The Skies", referindo ao momento único que o planeta está passando e o interesse do artista em desvendar esse mistério - "I wanna hear and see everything" - ou indagar sobre os seres deste planeta (I just wanna know about, the rooms behind your minds / Do I see a vacuum there, or am I going blind?). (Tradução anárquica: Eu só quero conhecer sobre os espaços atrás de sua mente / Vejo um vácuo ou estou ficando cego?).

Apesar de ser lançado unicamente pelo desejo da gravadora em querer dois álbuns no mesmo ano, Axis..., que não teve o mesmo sucesso comercial do antecessor, marcou a fase mais blues de Hendrix com canções mais lentas, ritmo mais denso e solos mais calmos. "Little Wing", épico que já foi honrado com uma versão mais ousada do guitarrista Steve Ray Vaughan, fala sobre uma garota com qualidades raras, que tem o angelical poder de seduzir qualquer espírito humano. "Spanish Castle Magic" também faz alusão ao céu e arrebenta com um poder instrumental devastador, soando como poderosas turbinas de um avião rompendo com o silêncio das nuvens.

Por fim, é um álbum mágico. Pode suscitar interpretações equívocas, como uma viagem constante com o uso de LSD. Mas essa aparente e supérflua observação é quebrada quando se enxerga o toque de genialidade de cada composição e o ávido perfeccionismo em tomar cuidado com cada nota das canções. Para teimosos, é como Townshend afirmou: "Jimi Hendrix não era dominado pelo LSD. Ele era muito maior que o LSD".

A eletricidade


No ano seguinte, sai Electric Ladyland. Considerado o álbum mais psicodélico da época, ele sintetiza a profunda exploração que Hendrix fez de seu instrumento. É o álbum onde os solos são mais extensos, onde toda a poesia lírica e os devaneios incólumes são transportados para a guitarra elétrica.

Os wha-whas e as pedaleiras, adventos recém-descobertos em 1968, atingiram sua supremacia nas mãos do guitarrista. Os 15 minutos de duração de "Voodoo Chile" definem bem a poesia instrumental a que Hendrix queria chegar. Talvez durante sua execução ele não queria fazer o uso da palavra - queria atingir sua aura como músico, transmitindo uma comoção espiritual que somente a guitarra em suas mãos poderia solicitar.

Seu terceiro e último álbum de estúdio também demonstra maturidade, como é o caso de "Voodoo Child (Slight Return)", incendiária canção que relata a desgraça de um homem que se compara ao demônio. Aliás, mais incendiária que a própria letra é o solo. Animal!

Inclusive, essa é a fase mais flamejante de Hendrix. É a explosão da virtuosidade, sem deixar de lado o compromisso com a melodia e a profundidade das letras. As pegadas de "Crosstown Traffic", "Burning of the Midnight Lamp" (uma tentativa de single que não vingou) e "Gypsy Eyes" são avalanches sonoras para qualquer ouvido. Não é a toa que este álbum encabeça a lista dos mais psicodélicos de todos os tempos.

Nesse álbum também está a definitiva versão de "All Along the Watchtower", escrita por Bob Dylan. Uma canção de peso que questiona o valor da vida e da liberdade, da imundície e da decisão do homem em aproveitar a vida pelos métodos mais pérfidos. Um apanhado existencial lúgubre, chocante. Some-se a isso a maestria do arranjo musical colocada nesta linda canção. Certamente, uma das regravações e interpretações mais apreciáveis do mundo pop.



Os exércitos

Três trabalhos tão vitais renderam a Hendrix uma grande adoração pelo público e por guitarristas. Após sua safra, não há como não comparar a sólida influência que ele causou em bandas como Allman Brothers Band (com o genial Duane Allman) e The Byrds, ou a inveja que Clapton deve ter tido por ver um músico atingir aquilo que ele sempre tentou: unir blues e rock, ao mesmo tempo, sem deixar de soar único.

Presença garantida nos festivais de Woodstock, pouco tempo depois da gravação de Electric Ladyland Jimi Hendrix impressionou ao anunciar que não estava mais com a banda que o consagrou - graças às suas desavenças com o baixista Noel Redding. Para dar continuidade a seu trabalho, chamou um colega do tempo em que tinha servido ao exército (sim, ele passou por isso!) para tocar baixo, Billy Cox, e o baterista Buddy Miles, experiente na arte de tocar funk, para formar a Band of Gypsys.

O único registro que se tem do trabalho do guitarrista com os novos instrumentistas está em uma gravação ao vivo na passagem do ano de 1969-1970. Lançado postumamente, neste trabalho está catalogada a incrível performance de Hendrix no palco, cantando inéditas como a furiosa "Ezy Rider" e a irresistível "Izabella". Dentre as novas canções, destaque para a abordagem política e pacifista de "Machine Gun", com solos que ultrapassam o limite da física para tocar o cérebro e conscientizar sobre as atrocidades a que o homem se sujeita na disputa pelo poder. Naquele momento, a tragédia isolada se situava na Guerra do Vietnã.




O epílogo

Como guitarrista, em 1970 Jimi Hendrix já estava consagrado como o maior. Como compositor, é impossível passar batido por sua melodia intensa e letras inteligentes. Jimi Hendrix, muito além de ser um instrumentista virtuoso, é a própria encarnação da psicodelia, o principal representante da cena emergente de 1967. Tudo isso sem causar manifestações arredias ou batalhar verbalmente contra a ideologia do lucro sobre a guerra. Em tese, sua revolução foi totalmente diferente: foi uma revolução comportamental muito além do gênero do rock. Hendrix foi capaz de mudar o jeito de tocar guitarra, o jeito de compor e o jeito de unir diferentes elementos musicais em uma única canção.

Infelizmente, aos malditos 27 anos, um dos maiores ícones do pop de todos os tempos veria seu fim. Apesar dos efeitos letárgicos que as drogas lhe causaram, mesmo sem interferir em sua grandiosidade, Jimi Hendrix teve um triste desfecho. O consumo de nove pílulas Vesperax de uma vez só fez com que desacordasse e, minutos depois, asfixiar-se com seu próprio vômito. Há uma lenda que diz que naquele momento havia pelo menos mais de 40 pílulas como essa em seu armário. Um mórbido fim, mas um ícone que jamais será apagado pelas chamas de sua Fender Statocraster ou por uma efêmera geração posterior à sua.



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