terça-feira, 8 de setembro de 2009

Os Beatles e a destruição do rock

Amanhã, dia 09/09/09, chega às lojas o jogo "The Beatles - Rock Band" e, junto com o jogo, uma porrada de produtos de marketing para promover novamente a maior banda do mundo, segundo críticos e público.

Pessoalmente, não gosto dos Beatles e debateria com qualquer um para explicar as razões. A única coisa que concordo é que eles evoluíram a partir do lançamento do álbum "Rubber Soul" (1965) que, pra quem não sabe, foi uma experiência do contato que tiveram com Bob Dylan. A partir daí a ingenuidade de cada integrante foi se dissipando e dando espaço para uma música mais rica nos arranjos, nas melodias e no próprio conteúdo das letras.

Um álbum dos caras que não tiro o mérito é o "Revolver", lançado em 1966. Eles conseguem integrar com sabedoria o espírito do rock'n roll com as letras psicodélicas que resultavam da trajetória da banda.

Mas, enfim, não quero ser crucificado. Não vou entrar na discussão da importância dos caras. Quero chegar em outro ponto, que pouquíssimos mencionam: os malefícios da beatlemania.

Elijah Wald, historiador que escreveu o livro "Como os Beatles Destruíram o Rock and Roll", toca em um ponto chave para explicar seu argumento. Ele afirma que o grupo chegou em uma época onde a integração racial na música estava se iniciando; os brancos iam prestigiar o show dos negros e os negros iam prestigiar Elvis Presley, que seguiu o conselho de Sam Philips a cantar como os negros. De qualquer forma, o rock estava se tornando uma realidade multiétnica nos anos 50. Como Wald complementa, James Brown era rock, Ray Charles era rock, assim como Elvis Presley também o era.

Mas eles se prestigiavam nas apresentações ao vivo; levavam o público ao delírio com a energia nos vocais e nas improvisações nos palcos. Então, o que atraía o público: suas canções em particular, não trabalhadas e aprimoradas de forma conjuntural (álbum), como a indústria fonográfica o fez após a explosão dos Beatles.

Defendi aqui que escutar um álbum é uma dádiva única. Esta, sim, é uma contribuição dos Beatles, pois eles, depois da fase psicodélica, mal se apresentavam em público. Entretanto, a chegada dos Beatles rompeu abruptamente com a integração das possibilidades do rock, dividindo a música negra e tornando-se, essencialmente, uma música para brancos.

Como diz Wald, "o rock dos negros se tornou soul". E transfigurou-se em música branca. A MTV é a continuidade desse rompimento, pois ela baseia sua programação musical em rock, música para brancos. "E isso, de certa forma, acabou impedindo a evolução dos ritmos dos negros e dos brancos", analisa.

O que ainda deslanchou a febre dos Beatles foram as possibilidades tecnológicas na época de elevar a qualidade sonora. Essa tecnologia coincidiu com o grande sucesso de John, Paul, George e Ringo e trouxeram amplas vantagens para a música. Com isso, as gravações se tornaram o pano de fundo essencial para o sucesso da banda. Eles começaram a trabalhar a possibilidade de canções em conjunto para deixar alguma mensagem. E revolucionaram a indústria fonográfica, enchendo os cofres dos produtores, da própria banda e agradando cada vez mais a crítica e o público.

Só que, com o deslanche dos Beatles, os managers começaram a deixar de lado a música negra. Não agradava mais a energia nas apresentações como na década de 50; o que importava agora era causar impacto nas canções e deixá-las na memória dos ouvintes através da venda maciça de discos. Isso era possível (com eficácia) com os álbuns - músicas trabalhadas em conjunto. E a partir daí o que interessava era fazer música que interessasse aos brancos, como fez Berry Gordy Jr. com os negros da Motown.

Wald argumenta que essa divisão de águas dos Beatles acabou 'empobrecendo' a música negra e a música branca, porque elas ficaram separadas, muito rotuladas. Os Beatles acabaram com essa integração, porque fincaram o pé no mercado e conseguiram realizar o verdadeiro sonho dos produtores musicais da época: deixar evidente que a música de qualidade estava nos grupos brancos, não mais nos negros, que dominaram o mercado durante décadas e décadas. (Paradoxalmente Michael Jackson chegou e rompeu com esse estigma. Justo ele, um negro que só queria dançar e encantar as multidões.)

Portanto, é errôneo afirmar que a revolução dos Beatles elevou a música para melhor. Pelo contrário; eles fizeram um sucesso tão grande, que puxaram todo o prestígio da 'revolução' para o nome deles e, consequentemente, impediu que a música se integrasse racialmente e se tornasse mais rica. A contribuição dos Beatles no popular é enorme por conta da possibilidade de trabalhar uma obra em conjunto; mas também é enorme no rompimento com uma multietnicidade que poderia dissipar o preconceito - através da música - entre brancos e negros numa sociedade civil.

E, novamente, tudo ficou dividido entre música para negros e música para brancos.

Para entender um pouco mais sobre esse argumento, assistam ao vídeo de Elijah Wald, o escritor de "How The Beatles Destroyed Rock & Roll":

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4 Atemporalizados:

Mellany disse...

também nunca gostei de beatles, eles foram a primeira boy band da história é fato!!!! sem uma ajudinha de sir Bob Dylan não haveria uma música que eu goste destes caras que são idolatrados de tal maneira que não suporto!!
enfim..entre beatles e rolling stones fico com os stones.

p.s: nem vê mais meu blog né? hunf rsss

Tiago Ferreira da Silva disse...

Mellany,

Os Stones são fOdas. Tem a fase de ouro deles, entre 1968 e 1972, que rendeu álbuns de ótima qualidade. Na minha opinião, eles conseguiram elevar o rock'n roll de verdade, ao lado de The Who, Cream, Jimi Hendrix, Sly and Family Stone....

Na seção "Grandes Álbuns" vou postar alguma pérola dos Stones. Aguarde!
hehehheheh

Ando meio desligado da blogosfera, por isso não tenho visitado muito tua página. Assim que possível, dou um pulo por lá!

Marcelo Mayer disse...

olha, acho beatles do caralho! e sua importância para o rock é inegável. Jimi Hendrix era muito influenciado, Cream, The Who e os própros stones... uma infinidade.
mas enfim, não to aqui pra pregar que beatles é foda!
estou aqui pra dizer que achei ótimo seu texto, pq pegou num ponto interessante. os beatles não acabaram com o rock. quem acabou foi a beatlemania. e a própria mídia. enquanto eles faziam coisas geniais, todos ficavam falando e lambendo os sacos-deles.
na minha opinião, quem não gosta de beatles, peço que ouça de novo. se não gostar, o problema tá na pessoa, não nos beatles.
agora, um exemplo de como a midia acabou com os beatles e fizeram, deles essa imagem tosca e bonitinhos: o disco with the beatls é considerado o disco negro. pq? pq há regravações somente de artistas negros, mas como disse, a mídia deixou isso de lado. não se pode coloca a culpa neles por essa "divisão"
bom, embora não concorde com vc, achei interessante seu ponto de vista, pq há fundamento e teve uma boa base de pesquisa.
só pra terminar, esquecem de dizer tb como dylan mudou depois de conhecer beatles. né? oq dizer do highway 61? discaço!!!!!

abraços cara e belo blog. ótimos txtos musicais. o texto do movimento manguebeat é ótimo!

Tiago Ferreira da Silva disse...

Marcelo,

Muito obrigado pelo comentário. Concordo com você em relação aos Beatles; em nenhum momento quis dizer que o grupo é uma 'bosta' ou algo do tipo. Realmente os discos dos caras são bons, principalmente porque os quatro integrantes têm uma sincronia musical de invejar qualquer um.

Você tocou num ponto interessante, que não deixei muito explicito no texto: o que realmente comprometeu foi a 'beatlemania', esse culto eterno de vangloriá-los. Não que eles não merecessem (apesar de não ser fanático por eles), mas foi um excesso que mudou o panorama da música dali em diante.

Foi a imprensa que divulgou o que é música boa e acabou lambendo demais o seu doce e se contaminando. Não só o seu próprio critério de música boa, como o critério de música de massa. Quer queiram quer não, os Beatles fizeram parte disso, foram o 'start' dessa coisa toda, apesar de serem únicos e geniais.

Não estou colocando a culpa nos Beatles, só quis dizer que, ao mesmo tempo que regozijaram gerações com suas canções inteligentes, também acabaram contaminando sem querer a integração social e principalmente racial no ramo musical: hoje, separa-se música negra de música branca. Não que eles sejam os culpados - mesmo pq os negros guardam aquele orgulho de terem uma cultura conjunta, única.

Talvez até tenha sido melhor assim mesmo, do jeito que está. Mas foi uma ruptura que está refletida explicitamente nos dias de hoje. Vide MTV e me diga: através da música, ela representa todas as raças e divisões sociais?

Independente da música, Marcelo, creio que isso ainda resiste - e deve resistir mesmo - a diferença entre branco e negro, pobre e rico.

Grande abraço, volte sempre!

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