Só a pronúncia do termo 'nazista' provoca náuseas não só para os judeus, que sofreram com o Holocausto sob comando de Hitler, mas também para qualquer um que dê importância aos valores de justiça social. Mesmo quem não dispensa uma cena de violência ou não deixa de admitir o grau de perspicácia do Führer, não hesitaria em mudar os rumos da História para dar um desfecho, digamos, mais punitivo para os alemães nazistas.

Quentin Tarantino, que dispensa comentários de sua filmografia com clássicos que vão de "Cães de Aluguel" e "Pulp Fiction" à adaptação de "Kill Bill" para as telas, propõe uma alternativa no curso da história para dar um ar mais 'trágico' ao nazismo.

Com seu toque pessoal, o filme começa com uma cena meio western, apenas uma das muitas miscelâneas que o diretor trabalha no longa "Bastardos Inglórios". O coronel 'caçador de judeus' Hans Landa, interpretado de maneira magistral por Christopher Waltz, chega calmamente a uma vila rural e inicia um diálogo desconcertante e torturador com o dono da estalagem, lembrando uma passagem da obra "Crime e Castigo" de Dostoiévski, quando o criminoso Raskólnikov se vê obrigado a conversar informalmente com o investigador do caso. De delongas e delongas, o sentimento de culpa floresce e o dono da propriedade rural acaba entregando os judeus que se escondem embaixo de seu piso. Dessa chacina, Shosana Dreyfus (Mélanie Laurent) consegue escapar para Paris e comandar um cinema da cidade.

Paralelamente, Aldo Rayne (divertido papel de Brad Pitt) e sua trupe de caçadores de nazistas assombram o comando do III Reich. Quando não matam suas presas, os "Bastardos Inglórios" riscam um símbolo da suástica nas testas dos capturados, provocando um perpétuo sentimento de culpa nos envolvidos por participarem de algo tão cruel como o nazismo.

Aniquilar Hitler, Goebbels e a trupe dos súditos passa a ser o epicentro do longa, quando os destinos dos Bastardos e de Dreyfus, que é obrigada a estrear um filme nazista em seu cinema, se cruzam.

Nada ainda está combinado, mas a frieza e a perspicácia do coronel Landa é a maior preocupação dos revoltados e da judia. Em uma das cenas mais memoráveis, Landa visita o restaurante em que Goebbels e o sargento Donny Donnowitz (condecorado com o filme por assassinar mais de 60 americanos em uma missão arriscada) discutem a projeção no cinema de Dreyfus. Ele chega e, para o temor da judia, pede para conversar a sós com ela. A cena testa os anseios do espectador, que não sabe se o coronel vai impedi-la de rodar o filme ou matá-la ali mesmo. A câmera giratória traz o clima de tensão no local, mas o diálogo toma outros rumos; não que o coronel não soubesse o que estava fazendo. Apenas apareceu para prontificar sua missão de vigilante.

Por outro lado, os "Bastardos" contam com o apoio de uma agente dupla, a belíssima atriz Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), para infiltrar no cinema e acabar de vez com toda a guerra provocada pelos nazistas. Como? "Just kicking their asses".

Dreyfus combina com o affair e projetista negro de seu cinema trancar todos os nazistas na sala e queimá-los de uma vez por todas, com direito a um diálogo pós-filme aterrorizando todos os espectadores orgulhosos com a matança do sargento-estrela do filme.

Com gargalhadas garantidas, como a tentativa de Aldo Rayne em parecer um italiano mafioso no cinema, o esforço de Bridget em não parecer machucada após uma mudança de planos na taverna onde encontrou os Bastardos... nada disso escapa aos olhos de Landa, de longe a melhor atuação de "Bastardos Inglórios".

Recheado de diálogos intrigantes, Tarantino trabalha influências do faroeste, de filmes de guerra italiano, thrillers psicológicos, entre muitas outras. Desse caldo, resulta um filme divertido e antagônico. Antagônico porque o diretor transfigura o cenário da Segunda Guerra Mundial, geralmente retratado com a maior proximidade possível à historiografia. Sangues e violência não faltam, mas a estética característica de Tarantino se sobressai nas telonas, provocando dualidades que impressionam o espectador: tensão e riso, ira e sutileza, previsão e suspense, só para citar alguns.

Mas a verdade incontestável é: "Bastardos Inglórios" é um dos melhores filmes de Quentin Tarantino. Pode-se dizer, seguramente, que é comparável à sua obra-prima, "Pulp Fiction".


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2 Atemporalizados:

Didiorock disse...

Realmente um dos melhores filmes de Tarantino!
Mostra algo que muitos gostariam que tivesse sido real e mostra de uma maneira que só o tarantino consegue!

Tiago Ferreira da Silva disse...

Didiorock,

Nem me fale. Pulsação a mil com esse filme. Mas o que realmente mais me arrepiou foram os diálogos e o jeito sarcástico do Coronel Landa.

Melhor filme do ano, na minha humilde opinião.

Obrigado pelo comentário, volte sempre!

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