quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Afeganistão - e os rumos do mundo - nas mãos de Obama


 
O problema de ser centrista é que as críticas vêm de todos os lados, não importa se tenha ou não fundamentos. Barack Obama está sentindo isso na pele com a Guerra do Afeganistão. Recentemente, o presidente americano aprovou o envio de mais 30.000 soldados, a pedido do general Stanley McChrystal, para auxiliar na difícil missão de vencer a guerra. 

Como se já não tivesse recebidos críticas demais dos esquerdistas e alguns membros do Partido Democrata por fomentar uma guerra, Obama agora comprou algumas birras com o Partido Republicano - que em sua maioria apoia a permanência dos soldados no Afeganistão para combater o Talibã - por estabelecer um prazo para a retirada das tropas. Se até julho de 2011 não houver nenhum avanço no diálogo com a facção, os soldados voltam para os EUA. Os Republicanos argumentam que estabelecer prazos é um indício de fracasso na estratégia de guerra, por fazer com que os soldados operem sob pressão. Pelo menos não foi essa a impressão passada pelo general Stanley McChrystal, que está comandando a operação. Segundo o jornal El País, o general se sente incentivado pelo prazo dado.

Capturar simpatizantes do Taleban e ir com tudo pra cima deles não é bem a tática de McChrystal. O general pretende cooptar árabes a lutarem do lado dos ocidentais para que a ordem seja estabelecida no Afeganistão. Difícil pensar em ordem com um exército estrangeiro em seu território. Ainda mais um exército que desconhece a língua do país em que está instalado. Portanto, as dificuldades para que os planos de Obama sejam colocados em prática são imensas. É uma batalha contra a diferença cultural dos soldados ocidentais em relação aos cidadãos afegãos; uma batalha contra a impunidade terrorista de ameaçar de morte os patrícios que delatarem o esquema do Talibã aos americanos; e, agora, uma batalha contra o tempo estipulado pelo presidente. Por um lado, esse prazo é bom porque agiliza o processo e dá uma esperança aos soldados que batalham nessa guerra; por outro, pode ser curto e dificultar no diálogo efetivo com os afegãos.

Provavelmente, Obama põe fé no diálogo parcimonioso para solucionar a triste situação a que o Afeganistão se encontra. Mas, como se vê, o cenário não ajuda muito. McChrystal vai ter que tomar atitudes bem pensadas para que a guerra não seja em vão.

O PESO DA GUERRA

A proposta de Obama em trazer um ambiente mais pacífico ao Afeganistão com certeza está relacionada à sua origem muçulmana e, talvez, ele aposte nisso para conquistar com êxito seus objetivos naquele país. Soma-se a isso a sua batalha pelo apoio do partido oposicionista (que é a favor da  guerra) para que seus projetos sejam aprovados com mais facilidade.

Por outro lado, o peso da responsabilidade de manter uma guerra  é muito grande. Muitos críticos até relacionam essa política de Obama com a do democrata Lyndon Johnson na Guerra do Vietnã, que foi derrotado pela retórica belicista de Richard Nixon, do Partido Republicano, nas eleições de 1968. Se Obama fracassar, o slogan da mudança vai pro ralo. É algo muito ousado e arriscado por quatro motivos:


1 - Se Obama não vencer essa guerra, o Partido Republicano vai cair matando em sua estratégia e vai fazer o possível para que os cidadãos americanos adotem a política do medo, tal qual fez Bush depois de 11 de Setembro. Não é de se admirar que essa cena se repita.

2 - Obama pode perder a confiança de seus eleitores e pode obter um índice de desaprovação imenso não só em casa, mas também em toda a comunidade internacional, que irá associar essa derrota à sua inexperiência política. Ele pode nunca mais se candidatar.

3 - A carga de preconceito com os negros com certeza pode se elevar. Aliás, Obama é o primeiro presidente americano negro da história e carrega consigo um legado muito grande. O peso de vir de uma raça que foi escravizada durante anos pelos eurocentristas e que, quando tem a oportunidade de estar no poder, também se vê passível a cometer erros, é muito grande. Adoraria não afirmar isso, mas sei que essa ira racial é algo que pode ruir, principalmente em um país como os Estados Unidos.

4 - Os muçulmanos, que já são ridicularizados e alvos de preconceito pelos ocidentais, estarão em uma barreira cada vez mais intransponível no diálogo com a comunidade internacional. O que vem depois disso pode ser perigoso. Algo como uma Guerra Fria entre culturas e raças, não mais potências hegemônicas.

Por mais que seja contra guerra, há motivos para confiar em Obama. Porque ele sabe que tudo isso está em jogo. Dar um prazo para o término dessa guerra, em minha opinião, foi a decisão mais sábia no momento. Pelo menos se os Estados Unidos simbolicamente perderem essa guerra, já estarão precavidos para retornar com a consciência limpa, sem cair no crasso erro de prolongar os efeitos danosos que já foram - e os que ainda vão ser - marcas dessa guerra que, nas palavras do presidente, aparenta ter um fim, esteja ele próximo ou não.

Agora, a questão da confiança em Obama vai pesar bastante.

 

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