Muitos relembram os anos 80 como uma década de muita produtividade artística, principalmente no âmbito do rock; foi uma época marcante, porque o metal entrava em cena e impressionava os ouvintes com canções que enfatizavam a diversão e o hedonismo.


O fato é que essa foi a década em que o rock mais decaiu. Talvez a morte de John Lennon e a ressaca pós-60 tenha influenciado bastante para que o som se tornasse mais diluído e as letras, decadentes. O que salvou a música nesse período, sem sombra de dúvidas, foi a invenção do hip hop. Entretanto, de tão diverso que era, o hip hop era, ao mesmo tempo, um movimento de resistência das raízes negras do soul e do funk e uma crítica voraz ao establishment, dando voz às minorias periféricas e contrariando o conservadorismo das convenções sociais.


Public Enemy foi quem melhor incorporou os elementos de um hip hop sem papas na língua e, ao mesmo tempo, divertido. Movidos pelo sentimento da revolta, trouxeram em suas letras o peso da crítica política com bases de música negra, para enfatizar a causa anti-preconceito que aderiram explicitamente. 


A personificação do MC, que já se mostrava presente com as músicas de Run DMC e as experimentações musicais de Afrika Bambaataa, teria um peso maior com a bombástica atitude de Chuck D e o divertido Flavor Flav nos vocais, Professor Griff - em algumas vezes no vocal e na maioria delas na bateria - e o DJ Terminator X, que mostrou o poder das pick-ups no ritmo, improvisando 'scratches' com virtuosismo em cima de bases que vão de James Brown à Anthrax.


"It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back" é o segundo álbum do grupo, lançado em 1988 pela Def Jam Records. De fato ele é uma versão melhorada da aparição meteórica do P.E. em seu primeiro álbum "Yo! Bum Rush The Show", de 1986. 


Quando formou o grupo em 1982, Chuck D pegou a expressão "Public Enemy number one" utilizada em uma música intimista de James Brown. Sua preocupação com o sistema e a percepção de que ele era o culpado pela exclusão dos negros e mais pobres foi fator decisivo para que ele tomasse a frente dessa guerra e disparasse versos flamejantes, que atacam sem dó seus mantenedores, desde quando era um jovem MC nas rádios de Long Island, Nova York. "Don't Believe The Hype" traz a síntese de seu papel como músico. "About the gun... / I wasn't licensed to have one / The minute they see me, fear me / I'm the epitome - a public enemy" ["Sobre as armas... / Não tenho licença para obter alguma / No minuto que me veem, estremecem / Sou o resumo da ópera - um inimigo público"].


Apesar de ter uma causa social enquanto música, o P.E. não se prendeu a regionalismos ou adquiriu outros preconceitos ao defender os pobres e negros em suas canções. Em "Bring The Noise", além de tomarem os holofotes, estampam o som para o mundo convidando artistas renomados a escutarem o que tem pra dizer: "Beat is for Sonny Bono, beat is for Yoko Ono" ["A batida é para Sonny Bono, a batida é para Yoko Ono"]. 


Para provar o sincretismo a que estavam dispostos em aderir em suas canções, em "She Watches Channel Zero?!?", eles usam o sampler de um riff de rock pesado, "Angel Of Death", do Slayer, aproximando o peso das guitarras do rock com o peso das letras de rap.


Flavor Flav, que nas palavras de um dos fundadores do Beastie Boys, Adam Yauch, traz uma "aleatoridade selvagem" ao grupo junto com Chuck D, se apresenta como uma lâmpada fria, um complemento necessário para que as vozes do Public Enemy ecoem para todos os lados na faixa "Cold Lampin' With Flavor". Ainda nas apresentações, "Terminator X To The Edge Of Panic" anuncia a maestria do DJ numa base pesada de funk.


Seguindo uma linha cronológica de crítica, como se fosse um material bem elaborado nos moldes de uma tese argumentativa, "It Takes A Nation..." traz pesos pesados como "Louder Than A Bomb", na qual Chuck D assume um papel de delator das mentiras que a mídia e a política sustentam para diminuir a participação dos menos abastados nas decisões da sociedade. Sabendo que nem todos têm a atitude de confrontar os poderosos, Carlton Douglas Ridenhour explica a origem de seu pseudônimo: "Because D is for Dangerous".


Funk acelerado até o talo, "Caught, Can I Get A Witness?!?" é temperada com os scratches de Terminator X para relatar a dificuldade dos sentenciados à prisão em defender suas posições - afinal, eles são considerados mazelas da sociedade e não interferem no sistema macrofinanceiro. Quanto mais 'delinquentes' atrás das grades, melhor. E, quando se menciona 'delinquentes', extirpa-se o direito de defesa. Sem testemunhas, Chuck D conta as condições subhumanas do cárcere, onde "a bagagem vale mais que ouro".


Look at how I'm livin' now, lower than low [Veja como vivo agora, pior que os piores]
What a sucker know [O que um otário sabe]
I found this mineral that I call a beat [Achei esta fonte que chamo de batida]
I paid zero [Não paguei nada]
I packed my load 'cause it's better than gold [Embalei minha carga porque é mais valiosa que ouro]
People don't ask the price, but its sold [As pessoas não perguntam o preço, mas é vendido]
They say that I sample, but they should [Dizem que sou amostrado, mas eles deveriam]
Sample this my bit bull [Mostrar minha pequena oferta]


Falando em sistema prisioneiro, "Black Steel in the Hour of Chaos", certamente uma das melhores composições do grupo, relata o momento de fuga de encarcerados que representam tudo aquilo de mau que a sociedade prefere esconder. Critica o sistema de prisão e o consequente aumento de preconceito racial, pois a maioria dos presidiários é negra. Ironizando o 'negro' como pejorativo, Chuck D usa o termo "Black Steel" para se referir às armas dos carcereiros. Numa fábula periférica, narra a fuga dos prisioneiros, enquanto os agentes federais vacilam. Ele conta que a intenção da fuga é a volta para casa, e não a volta das práticas contrárias à lei. 




Em "Black Steel in the Hour of Chaos", P.E. usa uma base da música "Hyperbolicsyllabicseequedalymystic", do soulman Isaac Hayes. De forma abrupta, já inicia uma crítica ferrenha ao governo: "I got a letter from the government, the other day / I opened and read it, it said they were suckers" ["Recebi uma carta do governo, outro dia / Abri e li, dizia que somos trouxas"].


"Rebel Without a Pause", talvez a mais conhecida do álbum, é uma alusão ao filme consagrado de James Dean ("Rebel Without a Cause") e uma mescla de bases, scratches e indignações sociais, políticas e musicais. Com toda a maestria da equipe do The Bomb Squad, incluíram bases de "Get Up Offa That Thing" e "Funky Drummer", do reverenciado papa do funk James Brown. 


De forma irreverente e politizada, Public Enemy eternizou o hip hop com "It Takes a Nation..." e mostrou as diretrizes da crítica social para os grupos posteriores, conquistando a congratulada 48ª posição dos maiores álbuns de todos os tempos pela Rolling Stone. Sem nenhum preconceito (apesar da árdua batalha contra ele) e sempre abertos às experimentações, o grupo redefiniu a música negra e trouxe novas possibilidades ao gênero, sem abandonar as raízes musicais. O legado? Pode colocar na listinha aí Racionais, Snoopy Dogg, Beastie Boys, Dr. DRE, R.Z.O., Wu-Tang Clan e muitos, mas muitos outros mesmo. 





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6 Atemporalizados:

Mariana disse...

Muito bom o seu texto!

se puder, de uma olhadinha no meu blog ;)

http://gargalhandopordentro.blogspot.com/

Mellany disse...

parabéns você é um jornalista de mão cheia, um cara de principios que vai fazer a diferença no mundo.
to até com inveja de tanto que você escreve!!!! ¬¬ rrrsss

Tiago Ferreira da Silva disse...

Mariana,

Sugestão anotada. Volte sempre!

Tiago Ferreira da Silva disse...

Mellany,

Menos. Ando tão desligado e sem inspirações, que tive que recorrer à série dos álbuns para dar continuidade às postagens frequentes.
Mas estamos em ano de eleição, portanto, se continuar com tempo disponível, esse ano promete muitos posts sobre política.

Obrigado pelos elogios. Beijão!

Banca dos B-Boyzz disse...

Salve Tiago!
Se a coisa é boa o elogio vem em dobro - puta de uma matéria!!
PE é só referência boa, muito inteligente e sua homenagem veio a calhar!
Cara, faço um B-Boy Press, com um formato agenda mesmo. Vou botar seu link lá! 1 Braço
Poeta Xandu

ps- www.zinezerozero.blogspot.com

Tiago Ferreira da Silva disse...

Salve Xandu,

Valeu pelos elogios e pela indicação. Depois eu dou um pulo lá na sua página. Fique a vontade para visitar por essas bandas quando quiser!
Grande Abraço!

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