quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O que acontece com a Itália?


Algo estranho paira sobre a Itália. Difícil é interligar tudo isso com a ressaca pós-recessão econômica, crise de identidade do sistema capitalista ou mesmo com a revolução cultural dos anos 2000 com a virose informativa da internet.

Justo a Itália, que sempre fora conhecida como o berço da civilização mundial, mesmo que a custo de muito sangue e violência na Roma Antiga. Ou aquela Itália que atingiu a aura de sua fase artística com o Renascentismo de Michelangelo, Leonardo Da Vinci e Rafael. Ou, ainda, aquela Itália que trouxe novos rumos para o Cinema Mundial com as obras de Fellini, Vittorio de Sica, Paolo Pasolini e Roberto Rosselini. 

Mas, não, de todas as facetas italianas, a tecnologia provou que os jovens patrícios preferem rememorar os discursos do ditador Benito Mussolini, que criou o fascismo e deu margem para o fanatismo nazista que se propagou pela Alemanha, originando a Segunda Guerra Mundial. Segundo reportagem da Folha On-line, o aplicativo do iPhone que reproduzia os discursos de Mussolini bateu os recordes de downloads na Itália. Entretanto, o material foi retirado de venda por problemas de direito autoral. (Mas pode voltar a ser vendido se o problema for resolvido.)

Entre os discursos mais baixados, estava o que Mussolini pronunciou em 1938 em Trieste sobre a hegemonia do europeu, de cunho racista.

Soma-se a esse espectro o fato de que a popularidade de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro da direita que esporadicamente é comparado ao ditador fascista Mussolini, elevou sua  popularidade em dezembro de 2009 de cerca de 48% para quase 56%, principalmente após um golpe violento que recebera de um enfermo que, segundo as autoridades, "não tinha seu juízo perfeito".

Hoje, o jornal argentino Página 12 noticiou que Berlusconi, que tem amplo apoio na Câmara dos Deputados e no Senado, foi absolvido por não comparecer ao tribunal em que era processado por fraude e corrupção. O político líder da oposição Pierluigi Bersani ironizou o caso: "Até hoje, um primeiro ministro acusado que não comparecia a um processo devia justificar suas razões. A partir de amanhã, pode faltar ao tribunal porque deve trabalhar tranquilamente".

Juntando todos esses fatos, a única conclusão que pode se chegar é que algo estranho está acontecendo na Itália. É perigoso argumentar que uma possível ascensão do fascismo esteja ocorrendo, mesmo que debaixo dos panos, pois nenhum fato concreto aponta para este sentido. Talvez a recessão econômica, assim como aconteceu com o crash da bolsa de Nova York em 1929, dê margem para maior protecionismo nas transações comerciais e, posteriormente, possa criar movimentos nacionalistas mais intensos, assim como ocorreu com a ideologia fascista na Itália em 1933 - quatro anos após a crise.

Ainda é cedo para manifestar qualquer opinião. Enquanto isso, espero que os aplicativos italianos para iPhone também valorizem as cenas cinematográficas de Fellini, os quadros barrocos de Caravaggio e as esculturas renascentistas de Michelangelo. Já dizia Eric Hobsbawm, no seu clássico "Era dos Extremos", que a memória é a maior virtude da História. Foi a ausência da memória que desencadeou numa série de conflitos civis que marcaram o 'breve século XX'.

Talvez agora o cuidado que se deva tomar seja outro: deve-se precaver para que não haja uma 'distorção da memória'. Ou todos os tristes eventos do século passado podem se repetir, da forma mais catastrófica possível.


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