terça-feira, 24 de novembro de 2009

Lula aposta na moderação nas relações com o Irã


Caso o Brasil realmente queira assumir a hercúlea tarefa de mediador no Oriente Médio, tem que manter os pés no chão e saber ouvir os dois lados. Pelo menos, Lula foi suficientemente moderado para não dar importância às polêmicas declarações do presidente Mahmoud Ahmadinejad em sua visita ao Brasil ontem, e não se sujeitar à política restritiva da comunidade internacional.

Ainda impera o medo mundial característico pós-Guerra Fria de que o presidente do Irã tome posse da bomba atômica com seu programa de enriquecimento do urânio e, do nada, queira atacar os inimigos da região. Israel é quem mais dissemina esse temor, clamando à Obama e ao mundo sanções para que esse programa seja interrompido. Importante citar que a nação judaica é a maior potência da região, por ter apoio bélico dos países mais ricos do globo.

Ahmadinejad insulta a comunidade judaica por ter declarado que o Holocausto não existiu e que não se importaria se Israel fosse varrido do mapa. Isso porque Israel foi um estado mal planejado e construído na base do imperialismo em 1948, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Criado para abrigar os judeus que resistiram ao massacre de Hitler, teve apoio financeiro dos EUA e da Europa como forma de agradecimento à importante contribuição intelectual dos judeus em diversos campos acadêmicos.

Só que os judeus não queriam uma região qualquer. Queriam um local bíblico, sagrado, como a Jerusalém Antiga. Aliás, há séculos que os judeus pretendiam ocupar esse lugar - justamente na Palestina, terreno árabe, palco de confronto entre as duas religiões. Tudo por conta de dois períodos históricos:

1) O massacre dos cristãos contra judeus e árabes no período das Cruzadas. Os judeus não ficaram tão enfurecidos quanto os árabes, que acabaram interpretando essa reação como uma condescendência judaica. Aliás, por volta do século XI, os cristãos invadiram território palestino, que era ocupado pelos árabes, que foram aniquilados em grande maioria;

2) Com o fim do Império Otomano, que durou do século XIII ao início do século XX, no período da Primeira Guerra Mundial, os árabes acabaram perdendo a hegemonia da área que vai do sudeste europeu ao chifre da África. Com a queda de Hitler, os egípcios e sauditas tentaram novamente estabelecer uma unidade árabe que lhes desse um poder semelhante ao de outrora. Enalteceram os preceitos do islã para controlar a região e se uniam do jeito que podiam para conquistar novamente o império. Até que... buemba! Israel ocupa a Palestina.

O presidente iraniano, apesar da mudança dos rumos históricos, reflete hoje os interesses soberbos dos árabes em predominar a região, que sempre foi estratégica graças à riqueza dos recursos naturais e da posição geopolítica no globo. Só que Ahmadinejad é apenas um mero mensageiro de seu país. A comunidade internacional o repudia como pode por seus argumentos políticos que ferem a ordem mundial, mas ele é apenas uma figura moldada pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Foi o aiatolá quem apoiou a ascensão de Ahmadinejad no poder e, provavelmente, deve ter patrocinado a fraude nas eleições em junho deste ano. Ele controla a política, o Judiciário, a liberdade de imprensa no país e a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Apoia os movimentos extremistas como o Hezbollah (Líbano) e o Hamas, que preocupa as autoridades israelenses na Faixa de Gaza. Em seu país, Khamenei não tolera a manifestação de grupos que em sua avaliação são considerados insurgentes (como gays, lésbicas, travestis, ativistas políticos e contrários ao governo).

De fato, o aiatolá, em aliança com os árabes egípcios e sauditas, promove como pode o conflito na região para que o extremismo islâmico se torne uma força unificada e tenha poder suficiente para comandar o Oriente Médio.

Não é de hoje que o Irã preocupa a comunidade internacional. Desde a Revolução Islâmica, promovida em 1979 pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o Irã perdeu o apoio geopolítico dos Estados Unidos para aderir a uma república teocrática, com o apoio dos xiitas que constituem a maioria de seu povo. Acabava o longo período histórico em que o Irã era regido por uma monarquia, que remonta ao século VI a.C., na época de Ciro. Quando assumiu, Khomeini argumentou que seu país estava se ocidentalizando demais e atropelando a tradição religiosa do islã.

Tal reviravolta no Oriente Médio fez com que os EUA mudassem de posição e apoiassem o regime do ditador iraquiano (e sunista) Saddam Hussein. Aproveitando que Irã e Iraque estavam em conflito, em 1980 patrocinou a guerra entre os países, que culminou com a morte de cerca de 30 mil soldados iranianos. Os EUA não tinham esquecido o episódio em que mais de 50 americanos foram feitos reféns em sua Embaixada em Teerã. É nessa época que se inicia a geopolítica do medo e da soberania americana sob o comando do republicano Ronald Reagan, que facilmente derrotou Jimmy Carter nas eleições graças ao seu tom belicista.

Nas relações internacionais, Lula vai ter que analisar bem todos os ângulos possíveis da história. O que realmente está em jogo, sem sombra de dúvida, é o interesse em desfrutar dos recursos naturais do Oriente Médio. O presidente, esperto como é, quer firmar uma parceria estratégica nas relações comerciais para exportar mais alimentos ao Irã em troca de mais petróleo.

Talvez essa história toda de mediação seja um simples alarde, graças à fama conciliadora de Lula. Pelo menos ele fez sua lição de anfitrião sem irritar nenhum dos lados dos quais joga: defendeu a criação de dois estados como solução para o impasse de Israel e Palestina e, ao mesmo tempo, defendeu o direito do Irã de prosseguir com as pesquisas em urânio - que não quer dizer que Lula seja a favor de que o país tenha posse da bomba atômica.

Pelo jeito, para Lula e para os interesses comerciais do Brasil, a visita de Ahmadinejad foi boa. É importante manter esse papel conciliador. Mas, não se sabe o que pode vir daqui pra frente. A imprensa torce para que o presidente iraniano faça alguma cagada para apontar o dedo acusatório à Lula. Todavia, a política é um jogo contínuo. Só o tempo vai provar se a parceria brasileiro-iraniana é um pacto com Judas.

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