Podemos não perceber, mas cada vez mais o Irã e a cultura do Oriente Médio se aproximam do Ocidente. A recente visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil reflete um pouco dessa realidade.

Paralelo a isso, todos os tipos de preconceitos e estereótipos são desferidos aos montes a essa região tão conflituosa, que detém os maiores poços de petróleo do globo. E quem diretamente sofre com esses ataques perniciosos motivados pela santa ignorância? O povo, é claro, que mora naquela região.

Marjane Satrapi não pode ser considerada uma representante 'in loco' do caos diário que assola o Oriente Médio - mais especificamente o Irã. Afinal, ela é descendente de um mandatário do império e teve uma família instruída e politizada o suficiente para ingressá-la em um liceu francês na intenção de garantir-lhe uma boa formação para abandonar, quando quisesse e se sentisse preparada, o terreno hostil que a pátria-mãe, o Irã, tinha se tornado.

Em "Persépolis", uma simplória e divertida HQ que conta um pouco da história de Satrapi no contexto da guerra Irã-Iraque patrocinada pelo armamento pesado dos EUA, a autora expõe o seu íntimo da maneira mais agradável possível ao leitor, para explicitar a influência deste 'causo' no cotidiano social do Irã. Ela retrata o fanatismo que tomou conta dos patrícios com a intensificação da guerra e como isso eclodiu na vida do cidadão comum - no caso, ela, Marjane Satrapi, e sua família.

De forma divertida, graças à leitura fácil e atraente, o leitor irá se identificar com a trajetória dos erros e acertos da pequena garota rebelde e corajosa até se tornar uma universitária com sede de saber, ricas experiências de vida e uma educação exemplar. Entretanto, como o fato histórico vivenciado pela jovem obrigou-a, ela devia prestar contas a um regime islâmico cada vez mais repressor, que impedia que as mulheres usassem maquiagem, cultivasse padrões ocidentais de beleza ou despertasse em público desejo aos homens.

A repressão foi intensificada com a queda do xá em 1979 e o levante do Irã, que levou milhões às ruas para protestar contra a opressão aos dissidentes políticos contrários à monarquia, que dominava o país na época.

Neste momento, os ativistas políticos acharam que no Irã surgiria uma república democrática ou socialista nos moldes teóricos de Karl Marx. Em pouco tempo, os cidadãos mais informados (como a família de Satrapi) perceberam que nada disso aconteceria - o que de fato se concretizou.

Os novos dirigentes se mostraram ainda mais conservadores que os monarquistas. Toda essa transição política foi motivada pela crescente subserviência do xá com os EUA, que estavam interessados no petróleo. Os islâmicos que tomaram o poder adotaram uma política protecionista com os americanos, que não toleraram e fizeram questão de fomentar a richa contra o vizinho Iraque promovendo uma guerra que matou muita gente inocente naquela região.

Diante do cenário catastrófico que o Irã sofria em meados dos anos 80, os pais de Satrapi acharam melhor mandá-la para a Áustria, para que ficasse a salvo e pudesse dar continuidade aos estudos. Chegando lá, deparou-se com uma cultura extremamente diferente da sua. Apesar de ter uma educação liberal e levemente ocidentalizada, a autora relata algumas de suas chocantes surpresas com o 'european way of life', como a liberdade sexual (ao contrário do conservadorismo de seu páis de origem) e o asco que lhe causava o pseudo-intelecto da juventude burguesa.

Depois de passar por maus bocados e uma rica experiencia de vida, volta para a terra natal com o pensamento mais estruturado, apesar da crise de identidade suscitada pelo choque cultural de quatro anos de vivência na Áustria.

O que mais instiga o leitor a folhear as páginas de "Persépiolis" é a possibilidade de adentrar em uma vida privada totalmente diferente vista a olhos ocidentais. Marjane Satrapi pode não representar o cidadão médio do Irã ou daquela região, mas não deixa de desvendar surpresas e de compartilhar emoções e experiências com o amigo leitor.

Pois, por mais que o Oriente Médio e o resto do mundo estejam distantes cultura, política e geograficamente, uma coisa nos une: a vivência. Essa é a carta na manga que Satrapi usa sabiamente para apresentar um pouco de sua realidade, que não deixa de ser um fragmento verossímil da situação política do Irã.

* Em 2007, a HQ foi adaptada para as telonas do cinema. Abaixo, segue o trailer de "Persépolis", com legendas em inglês:



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